O plano abominável de Trump para expulsar os palestinianos de Gaza

Por Socialist Party, Irlanda

– Artigo publicado originalmente pelo Socialist Party, Irlanda, a 5 de Fevereiro de 2025, e pelo Projeto para uma Internacional Marxista Revolucionária a 6 de Fevereiro de 2025 –

O genocídio em Gaza continua. Trump anunciou um plano ultrajante para a limpeza étnica em massa dos dois milhões de palestinianos de Gaza, insinuando até que as tropas dos EUA poderão ser usadas para o impor. Como se se referisse a um dos seus negócios imobiliários corruptos, anunciou que os EUA passariam a ser donos desta pequena faixa de terra e transformariam Gaza na “Riviera” do Médio Oriente. Os seus comentários provocaram indignação e choque entre as pessoas comuns em todo o mundo.

Esta declaração foi feita com o primeiro-ministro israelita Netanyahu ao seu lado, com uma expressão de satisfação de revirar o estômago. Apesar das acusações do Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra contra si, Netanyahu recebeu o prestigioso prémio de ser o primeiro líder estrangeiro convidado a visitar Washington sob a presidência de Trump. Este foi um sinal claro para o governo israelita de que poderia continuar a agir impunemente no seu massacre contra os povos da Palestina, do Líbano, da Síria, entre outros. Isto ocorreu depois de Trump nomear Elise Stefanic como embaixadora dos EUA nas Nações Unidas. Stefanic argumentou que Israel tem um direito bíblico às terras da Cisjordânia. Além disso, o novo embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, afirmou que “realmente não existe tal coisa como um palestiniano.”

Tudo isto é uma tentativa de normalizar e legitimar o terror genocida que o Estado israelita despoletou em Gaza e na Cisjordânia ocupada desde outubro de 2023. Significa que Netanyahu sentirá pouca pressão para cumprir o acordo de cessar-fogo. Demonstra ainda mais a razão pela qual o movimento de solidariedade com a Palestina deve continuar a ser uma força ativa e mobilizada a nível global, incluindo a intensificação significativa das ações de luta dos trabalhadores, particularmente contra a exportação de armas para Israel.

Normalizar o genocídio

É vergonhoso que, à luz disto, o governo irlandês continue comprometido em abandonar o Decreto dos Territórios Ocupados (“Occupied Territories Bill”, OTB), que proibiria a importação de bens e serviços da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental e dos Montes Golã – prostrando-se diante de Trump e das multinacionais dos EUA, consideradas mais essenciais do que os direitos e as vidas dos palestinianos. Nem é preciso dizer que este governo planeia ir a Washington DC no Dia de São Patrício (“St. Patrick’s Day”) para entregar o pote de trevos (“bowl of Shamrock”) a este Presidente fascista, como fez no ano passado com o Joe Genocida. Novamente, precisamos de pressão popular para exigir que o OTB seja implementado e que não haja uma lavagem verde (cor associada à Irlanda) de Trump em março.

Os comentários de Trump ilustram que a sua administração está a abandonar até o apoio verbal a uma “solução de dois Estados”, para alegria do governo de Netanyahu. Eles querem destruir as aspirações nacionais dos palestinianos na sua totalidade, não permitindo sequer que tenham um Estado num pequeno pedaço da sua terra natal histórica.

Durante décadas, o apoio a uma solução de dois Estados tem sido a posição declarada dos estados imperialistas e capitalistas internacionalmente, enquanto as administrações anteriores sob Biden, Obama e Bush deram assentimento vago e superficial a essa ideia. Esta fação da classe dominante dos EUA ficará incomodada por Trump ter abandonado até a retórica de apoio aos direitos palestinianos, pois isso enfraquecerá ainda mais a sua posição no Médio Oriente e no Sul Global, dado que já foi grandemente prejudicada pelo apoio ao genocídio.

É claro que o apoio do imperialismo ocidental a um Estado palestiniano tem sido diariamente desmentido pelos factos no terreno. Estas mesmas administrações e muitos Estados europeus têm apoiado a continuação da ocupação, a expansão dos colonatos e o genocídio de Gaza, que tornaram nula qualquer forma significativa de Estado para os palestinianos.

Quando muito, os palestinianos poderiam esperar uma entidade truncada e não contígua, segundo o modelo dos bantustões da África do Sul do apartheid, onde regimes ditatoriais fantoches administravam pequenas bolsas de terra a mando da sua classe dirigente branca. Os governantes sionistas e os seus apoiantes imperialistas nunca aceitariam a existência de um Estado baseado nas fronteiras de junho de 1967 (abrangendo a Cisjordânia e Gaza) com Jerusalém Oriental como capital. Isto para não falar do direito de regresso dos refugiados palestinianos e dos direitos dos palestinianos dentro da Linha Verde.

Portanto, por mais desprezível que seja o anúncio de Trump, é repugnante ver os democratas nos EUA e os representantes de outras potências imperialistas, como a Grã-Bretanha e a Alemanha, proclamarem o seu choque e horror. Estes líderes mundiais armaram diretamente e apoiaram politicamente o assassínio em massa indiscriminado, a fome e a tortura psicológica de toda a população de Gaza.

Totalmente inviável

Se Trump vai ou não agir seriamente com base na sua retórica ou se isso apenas consiste numa falsa promessa, será algo a verificar. Notavelmente, no contexto de impulsionar ainda mais os acordos de normalização, onde os estados árabes reconhecem o Estado israelita e estabelecem laços diplomáticos e económicos com ele, promover a expulsão da população de Gaza será difícil.

Estes estados e as suas classes dominantes – bilionários corruptos e despóticos cujas vidas estão longe das massas pobres e oprimidas da região – não são amigos do povo palestiniano. No entanto, estão conscientes de como o genocídio radicalizou a classe trabalhadora, os pobres e os jovens nas suas sociedades, e, por isso, “normalizar” a existência do Estado israelita não será aceite. De facto, os comentários de Trump tornarão muito mais difícil para a Arábia Saudita aceitar essa normalização, dado que condicionaram a criação de um Estado palestiniano a qualquer acordo nesse sentido, algo a que o novo Presidente se opõe inequivocamente.

Da mesma forma, os regimes do Egito e da Jordânia estarão relutantes em facilitar a limpeza étnica de Trump, aceitando refugiados de Gaza, apesar da pressão que ele exercerá sobre eles. Já existe uma grande população de refugiados palestinianos na Jordânia e ser visto como cúmplice na destruição da Palestina será recebido com raiva massiva e possíveis revoltas revolucionárias.

Além disso, o envio de tropas dos EUA para impor este plano será recebido com oposição internamente; Trump construiu cínica e dissimuladamente a sua base como um Presidente “anti-guerra”.

Crucialmente, qualquer movimento deste tipo será recebido com uma oposição inabalável das próprias massas palestinianas, que resistiram corajosamente ao ataque genocida do Estado israelita – estão determinadas a não ser forçadas a sair da sua terra natal.

Liberdade para a Palestina

Os horrores que a população de Gaza enfrenta e os comentários genocidas de Trump sobre o seu futuro trazem à tona a opressão do povo palestiniano. É um facto autoevidente que os palestinianos continuarão presos num inferno enquanto o Estado sionista, apoiado pelo imperialismo, continuar a existir, pois negar-lhes-á o seu direito à liberdade, à autodeterminação e ao retorno dos refugiados com uma determinação assassina.

O Estado sionista deve ser derrubado e destruído, tal como as ditaduras capitalistas em todo o Médio Oriente e Norte de África. Não pode haver esperança de justiça e liberdade para a Palestina de outra forma. Deve ser substituído por um Médio Oriente socialista, onde a riqueza e os recursos da região sejam de propriedade pública e controlados democraticamente por governos da classe trabalhadora, dos pobres e dos oprimidos.

Neste contexto, através da democracia e da solidariedade nos interesses de todos os trabalhadores e povos oprimidos, palestinianos e israelitas poderiam viver em igualdade total, do rio Jordão ao mar Mediterrâneo, incluindo direitos iguais de ambos os povos à autodeterminação nacional.

A força e a agência para vencer esta mudança virão das massas palestinianas. Estas podem ligar a sua luta pela libertação nacional e social aos seus aliados naturais, a classe trabalhadora nesta região e a nível global – uma força verdadeiramente poderosa, se organizada. Existe uma necessidade urgente de derrotar o inimigo comum, o capitalismo e o imperialismo, que se baseia na exploração, opressão e genocídio.