No dia 9 de dezembro de 1987, a Primeira Intifada irrompeu no campo de refugiados de Jabalia, na Faixa de Gaza, depois de quatro trabalhadores palestinianos terem sido mortos num acidente provocado por um camionista israelita. Durante quase quatro anos, as forças israelitas foram incapazes de esmagar um movimento que consistiu maioritariamente em greves, desobediência civil, manifestações de massas e barricadas, em grande parte não violentas.
Para assinalar o aniversário do início da Intifada, republicamos um artigo do destacado marxista irlandês Peter Hadden. Foi escrito em fevereiro de 1988, enquanto a Intifada ainda se desenrolava. À luz dos horrores dos últimos trinta anos e do genocídio em curso, algumas das formulações seriam hoje desenvolvidas de forma mais aprofundada; ainda assim, o texto não só continua relevante, como constitui uma contribuição importante para o debate sobre o caminho a seguir pelo movimento palestiniano hoje.
Só através da auto-organização política da classe trabalhadora e da juventude palestiniana, em ação conjunta com a classe trabalhadora organizada do Médio Oriente e do Norte de África, será possível enfrentar o imperialismo e os regimes capitalistas — bem como aqueles que traíram a luta palestiniana ao longo da sua história — e construir um verdadeiro movimento revolucionário pela libertação da Palestina.
É por isso que a solidariedade internacional é absolutamente crucial e precisa de ser reforçada. A máquina de guerra imperialista-sionista, responsável pelo genocídio, tem de ser travada para que o povo palestiniano possa realizar a sua própria libertação. A sua vitória seria uma vitória para a classe trabalhadora e para os oprimidos de todo o mundo.
A destruição do Estado de Apartheid israelita não é apenas responsabilidade dos trabalhadores da Ásia Ocidental. É ainda mais responsabilidade dos trabalhadores das potências imperialistas que criaram, apoiaram e armaram Israel para defender o seu saque da região. A menos que as organizações operárias lutem pela libertação da Palestina, não serão capazes de lutar de forma eficaz pela verdadeira libertação dos seus próprios membros.
No meio dos tiroteios e bombardeamentos implacáveis e indiscriminados que aterrorizam o povo de Gaza, o Estado de Israel gerou a fome, tornando Gaza aquilo que as Nações Unidas chamaram de “o lugar mais faminto da Terra”, onde “a fome bate a todas as portas”. Pelo menos 113 pessoas morreram de fome, número que só aumentará nas próximas semanas se o regime sionista, apoiado pelo imperialismo dos EUA, mantiver o bloqueio total da Faixa.
Os trabalhadores, com o apoio e facilitação dos sindicatos, devem unir-se para discutir como podem agir, incluindo a recusa em manusear todos os bens e serviços israelitas e os produtos de quaisquer empresas cúmplices no genocídio.
Uma Palestina livre — o fim da ocupação, das leis do apartheid, das colónias de povoamento e da supremacia racial, e o reconhecimento do direito de regresso dos refugiados palestinianos à sua terra natal histórica.
Para além de apoiar firmemente estas reivindicações, argumentamos que elas são incompatíveis com a existência de um Estado sionista colonizador de povoamento; esse Estado tem de ser derrubado e desmantelado. As questões que se colocam são: será isso possível, dadas as actuais correlações de forças? Quem tem o poder de enfrentar um Estado tão militarizado e os seus aliados imperialistas? E, se for possível, que tipo de solução poderá garantir uma libertação genuína e uma paz duradoura para todos?
Por mais exigente que seja, elaborar uma solução viável e uma estratégia e tácticas para a concretizar pode trazer a esperança necessária para a causa palestiniana. Aqui, oferecemos as linhas gerais de uma perspetiva marxista sobre estas questões, como contributo para este movimento vital.
Esta caravana é um ato importante — uma prova de que os povos do Norte de África recusam manter-se em silêncio perante o genocídio. Pode ajudar a galvanizar o tipo de ação de massas, popular e transfronteiriça necessária para quebrar o cerco a Gaza.
Na Tunísia, na Argélia e em todo o Magrebe, os sindicatos de trabalhadores e estudantes e os movimentos sociais devem aproveitar este momento para coordenar e intensificar ações nos seus próprios países.
Em toda a região, é urgente transformar esta caravana num ponto de partida para um movimento mais amplo, organizado e enraizado de solidariedade da classe trabalhadora e da juventude com a Palestina — um movimento que desafie o sionismo, o imperialismo e todos os regimes capitalistas árabes que os sustentam.
A máxima marxista de que nenhuma nação pode ser livre se oprimir outras nações deve valer na luta revolucionária contra o militarismo e a guerra que caracterizam esta fase avançada do capitalismo. A classe trabalhadora dos países imperialistas deve erguer-se contra as intenções bélicas das suas burguesias locais e, lutando pela sua própria emancipação, associar-se às lutas nacionais dos povos oprimidos: contra a espoliação dos recursos naturais da Ucrânia, contra o genocídio do povo palestiniano, contra todas as tentativas de subjugar a vontade dos povos à ganância parasitária da burguesia.
O movimento internacional de massas contra o genocídio deve recomeçar e intensificar-se agora. As ruas precisam de ser inundadas. Os campus universitários devem ser encerrados e transformados novamente em bastiões de resistência. Mas, mais crucialmente, a classe trabalhadora organizada — essa força que não só pode protestar contra a guerra, mas travá-la — deve agir de forma decisiva.
Por mais que possam ignorar milhões a marchar, até os políticos mais belicistas não podem ignorar os portos, as redes de transporte, os bancos, as fábricas de armamento e as cadeias de abastecimento a paralisarem-se. Nos últimos 18 meses, vimos vislumbres deste poder — desde estivadores a recusarem-se a manusear carga israelita até trabalhadores do setor dos transportes a bloquearem carregamentos de armas em vários países.
A força e a agência para vencer esta mudança virão das massas palestinianas. Estas podem ligar a sua luta pela libertação nacional e social aos seus aliados naturais, a classe trabalhadora nesta região e a nível global – uma força verdadeiramente poderosa, se organizada.
Os massacres em curso em Gaza, os contínuos ataques mortíferos na Cisjordânia ocupada e o historial obscuro do regime israelita em matéria de “honrar” cessar-fogos devem servir de aviso amargo ao movimento internacional de solidariedade com Gaza para que não se desmobilize, mas redobre os nossos esforços para aprofundar e alargar a luta nas nossas comunidades, locais de trabalho e universidades. Isto deve implicar a organização de protestos, boicotes, ocupações e greves que visem todas as empresas e instituições que têm sido cúmplices deste genocídio e da ocupação da Palestina.