9 de Dezembro de 1987: Início da Primeira Intifada

Por Projeto para uma Internacional Marxista Revolucionária

– Artigo publicado originalmente em inglês pelo Projeto para uma Internacional Marxista Revolucionária a 9 de Dezembro de 2025 –

No dia 9 de dezembro de 1987, a Primeira Intifada irrompeu no campo de refugiados de Jabalia, na Faixa de Gaza, depois de quatro trabalhadores palestinianos terem sido mortos num acidente provocado por um camionista israelita. Durante quase quatro anos, as forças israelitas foram incapazes de esmagar um movimento que consistiu maioritariamente em greves, desobediência civil, manifestações de massas e barricadas, em grande parte não violentas.

Manifestantes da classe trabalhadora atacaram as colheitas de grandes proprietários palestinianos ricos, forçando-os a reduzir as rendas. Entraram em greve e recusaram pagar impostos. Os organismos da Administração Civil israelita nos territórios ocupados foram boicotados, e os palestinianos recusaram trabalhar nos colonatos israelitas. Um movimento de base, liderado por mulheres e raparigas, procurou estabelecer a autonomia alimentar palestiniana, iniciando o cultivo colectivo de alimentos.

O autor italiano Francesco Leopardi explica:

“o novo tipo de mobilização popular que emergiu com a Intifada foi uma mobilização em que a dimensão regular e popular dos protestos, com a criação de Comités Populares para coordenar a ação, substituiu as operações armadas de elite que até então tinham dominado a estratégia da OLP e da FPLP”.

A sua crítica dirigia-se à liderança da Organização de Libertação da Palestina (OLP) e às suas facções de esquerda, que falharam em reconhecer a importância da desobediência civil de massas como uma forma alternativa de oposição à ocupação, confiando antes no que designavam como “luta armada”, conduzida por grupos relativamente pequenos de activistas auto-sacrificiais. Mas, como afirmou um jovem activista da Intifada:

“Conseguimos mais em seis meses de insurreição do que a OLP em 20 anos de luta armada.”

No início de 1989, o governo israelita avançou para esmagar a Intifada pela força. Os palestinianos radicalizaram-se ainda mais, e aumentaram as tensões com a liderança mais moderada no exílio. A nível mundial, os anos seguintes marcaram uma viragem de época. Os Estados Unidos, com o apoio da moribunda URSS, lançaram a primeira guerra do Iraque após a invasão do Kuwait por Saddam Hussein. A União Soviética desintegrou-se em 1991. Estes acontecimentos alteraram o equilíbrio de forças na região. As elites árabes reduziram drasticamente o seu apoio à OLP. À medida que a Intifada perdia ímpeto, o impasse conduziu a um aumento dos confrontos violentos.

Foi neste contexto que os Acordos de Oslo foram negociados entre Israel e a OLP, por insistência do imperialismo norte-americano. Inicialmente recebidos com entusiasmo, alteraram profundamente a relação entre Israel e a Palestina. O “direito à existência” de Israel foi reconhecido e a luta armada rejeitada, enquanto Israel reconheceu a OLP como representante do povo palestiniano. Israel subcontratou a segurança e o policiamento da Cisjordânia e de Gaza à Autoridade Palestiniana, dirigida pela Fatah. Não foi alcançado qualquer acordo sobre o fim completo da ocupação, o direito de retorno dos refugiados, nem sobre o fim da expansão dos territórios coloniais.

Para assinalar o aniversário do início da Intifada, republicamos um artigo do destacado marxista irlandês Peter Hadden. Foi escrito em fevereiro de 1988, enquanto a Intifada ainda se desenrolava. À luz dos horrores dos últimos trinta anos e do genocídio em curso, algumas das formulações seriam hoje desenvolvidas de forma mais aprofundada; ainda assim, o texto não só continua relevante, como constitui uma contribuição importante para o debate sobre o caminho a seguir pelo movimento palestiniano hoje.

Revolta da juventude palestiniana

Os territórios ocupados de Gaza e da Cisjordânia encontram-se em revolta aberta contra o domínio israelita. Partindo de um único incidente — o atropelamento de quatro palestinianos por um veículo do exército israelita — os confrontos espalharam-se de Gaza para a Cisjordânia e para Jerusalém.

Para além dos motins, foram convocadas duas greves gerais, estando a segunda ainda em curso no momento em que este texto é escrito. Ações de greve solidária foram levadas a cabo pelos 750 mil árabes que vivem dentro das fronteiras de Israel anteriores a 1967, e manifestações de apoio tiveram lugar no Egito e noutros Estados árabes.

Este é o mais amplo movimento dos palestinianos de Gaza e da Cisjordânia desde que estas áreas foram anexadas por Israel em 1967, e o maior movimento do povo palestiniano no seu conjunto desde a greve geral de seis meses e a insurreição de três anos contra o domínio britânico entre 1936 e 1939.

Enquanto a juventude dos territórios ocupados tem resistido com barricadas e pedras, o governo de coligação israelita, liderado pela direita, respondeu com repressão brutal — detenções, deportações, gás lacrimogéneo lançado a partir de veículos militares, balas de borracha e balas reais. Há relatos de atiradores furtivos do exército israelita posicionados para identificar e assassinar alvos específicos durante os motins. E, apesar destes métodos, e apesar de até à data se registarem 38 mortos, a revolta não foi contida. Israel foi forçado a mobilizar três vezes mais tropas para subjugar a população de Gaza do que aquelas que foram usadas para conquistar esta área em 1967.

As causas da explosão social

Esta convulsão pode ter sido desencadeada por um único incidente, mas as suas causas reais residem nos problemas estruturais de pobreza e repressão. A repressão não é um fenómeno novo. Estima-se que 200 mil palestinianos tenham passado pelas prisões israelitas desde 1967. Metade dos estudantes da principal universidade da Cisjordânia, Bir Zeit, já passou pela prisão. Estes territórios, em particular Gaza, são o equivalente israelita dos bantustões da África do Sul. Dos cerca de meio milhão de habitantes de Gaza, mais de 400 mil são refugiados, muitos vivendo em campos sem habitação adequada ou infraestruturas básicas. Todos os dias, 100 mil palestinianos atravessam a fronteira para Israel para fornecer mão-de-obra barata. Não recebem quaisquer benefícios de segurança social e o único retorno que estas áreas veem dos seus impostos é sob a forma de soldados israelitas.

Quando o Likud, partido de direita, chegou ao poder em 1977, intensificou a sua política de colonização judaica de Gaza e da Cisjordânia, desviando recursos do desenvolvimento da região do Negueve, em prejuízo dos judeus que tinham sido incentivados a instalar-se aí. Tão extensa se tornou esta política de anexação através de colonatos que 36% da terra disponível em Gaza foi atribuída a 2.500 colonos, enquanto 50% da Cisjordânia se encontra sob uso militar ou nas mãos de 65 mil colonos.

Se a tudo isto juntarmos a extrema juventude da população palestiniana60% dos habitantes de Gaza têm menos de 20 anos — ficam claramente estabelecidas as verdadeiras causas do descontentamento e da revolta. As raízes históricas deste conflito residem, em primeiro lugar, nas políticas de dividir para reinar através das quais o imperialismo britânico manteve o seu domínio sobre a Palestina, e, em segundo lugar, na criação do Estado de Israel em 1948. A fundação de Israel levou à expulsão de cerca de 900 mil palestinianos para a Cisjordânia, Gaza e os Estados árabes vizinhos. Na sua maioria, estas pessoas e os seus descendentes continuam hoje a viver como refugiados.

Do outro lado, o Estado israelita consolidou-se. A sua população aumentou rapidamente com a chegada de judeus que fugiam à perseguição na Europa e de judeus expulsos de Estados árabes em represália. O Iraque, por exemplo, expulsou a maior parte da sua população judaica. Em apenas três anos após a sua criação, a população de Israel duplicou. Após quase 40 anos, estas pessoas, os seus descendentes e os imigrantes que chegaram posteriormente veem Israel como a sua casa e não têm outro lugar para onde ir.

Hoje, a destruição de Israel e a criação de um problema ainda maior de refugiados judeus não constitui qualquer resposta aos problemas dos palestinianos sem pátria e sem lar. Assim, não existe uma solução capitalista, apenas mais instabilidade e agravamento do conflito. A situação atual é intolerável para os árabes e insustentável a longo prazo para os judeus. A terra prometida de leite e mel não se materializou. Em vez disso, o Estado israelita é um Estado permanentemente sitiado: a juventude é forçada a pegar em armas, a despesa militar consome 20% do PNB, e a sua sobrevivência depende de ajudas do imperialismo norte-americano.

Israel encontra-se rodeado por 100 milhões de árabes. Os seus 3,5 milhões de judeus coexistem dentro de Israel com 750 mil árabes e governam diretamente mais 1,5 milhões nos territórios ocupados. Antes do final deste século, os judeus tornar-se-ão uma minoria dentro do Estado pós-1967.

Escolhas do regime

Para conter a situação, o regime vê-se forçado a escolher entre a alternativa limitada de concessão ou repressão. Governar através da repressão aponta para um cenário sul-africano de apartheid de facto, com todas as consequências explosivas que isso implica. Mas existe também um limite às concessões que podem ser feitas. Não podem retirar-se dos territórios ocupados nem permitir a criação de um Estado palestiniano genuinamente independente. Temem que esse Estado fosse radical, que radicalizasse a população árabe dentro de Israel e que fosse utilizado como base para ataques da OLP.

Em última instância, serão empurrados cada vez mais para métodos militares, prolongando o padrão dos últimos 40 anos e da desordem atual. Tampouco existe uma saída capitalista para os palestinianos. A política da maioria da OLP, particularmente de Arafat, de fazer acordos com regimes árabes reaccionários e tentar cortejar as grandes potências imperialistas, tem sido — e continuará a ser — uma receita para a instabilidade.

As propostas de Arafat para resolver a crise atual mostram o quão desligado ele está das exigências e aspirações reais da juventude palestiniana. Numa entrevista à Newsweek (14 de janeiro), afirma:

“Na minha opinião, a única forma, se os nossos amigos (sic) nos ajudarem, é que os territórios ocupados fiquem sob controlo da ONU durante um certo período, até chegarmos a uma solução final abrangente através de uma conferência internacional ou por qualquer outro meio.”

As declarações recentes de Arafat representam também uma viragem da maioria da OLP, na medida em que reconhecem agora explicitamente a existência de Israel.

As suas propostas estão a milhões de quilómetros da realidade. As Nações Desunidas não resolverão o problema de Gaza ou da Cisjordânia, tal como não conseguiram trazer a paz ao Líbano. A conferência que propõe seria entre Israel, os dirigentes dos Estados árabes — como a Jordânia — e a OLP, com o imperialismo, naturalmente, a respirar sobre o pescoço de todos os participantes.

Isto não poderia trazer qualquer solução. Como já foi referido, Israel não toleraria um Estado palestiniano genuinamente independente nos territórios ocupados. Nem a Jordânia nem o Egito o aceitariam, ambos temendo o desenvolvimento de um bonapartismo proletário, isto é, uma nacionalização generalizada da economia, como aconteceu na Síria. Nem o Egito nem a Jordânia desejam assumir controlo direto sobre essas áreas. No caso da Jordânia, os palestinianos tornar-se-iam a maioria da população, ameaçando o regime. Um controlo conjunto seria, a longo prazo, inviável. Seria como os problemas do Acordo Anglo-Irlandês multiplicados por cem.

Inquérito

Em todo o caso, nenhuma destas opções satisfaria as aspirações da juventude palestiniana. Um inquérito realizado nos territórios ocupados e publicado no ano anterior na revista árabe Al Fazr apresentou os seguintes resultados: menos de 40% defendiam um governo jordano ou egípcio; apenas 17% apoiavam um Estado limitado a Gaza e à Cisjordânia; enquanto 78% eram a favor de um Estado que abrangesse todo o território do atual Israel.

O domínio da Jordânia ou do Egito significaria trocar um opressor por outro. O ‘amigo’ de Arafat, Hussein da Jordânia, foi responsável pelo massacre de 10.000 a 17.000 palestinianos entre 1970 e 1971. O Egito governou anteriormente a Faixa de Gaza e nada fez para melhorar as condições nos campos. De forma significativa, o governo egípcio proibiu recentemente manifestações de solidariedade com os habitantes de Gaza e da Cisjordânia entre a população refugiada palestiniana nos campos do Sinai.

Um Estado limitado aos territórios atualmente ocupados é visto como inviável. Enquanto a pobreza e a opressão continuarem a ser o destino dos palestinianos, continuará viva a aspiração por uma pátria própria.

Só numa base socialista podem ser resolvidas as aspirações contraditórias de árabes e judeus e alcançado um acordo democrático. A única resposta é a criação de uma federação socialista do Médio Oriente. Esta permitiria o desenvolvimento da economia da região e levaria ao fim da pobreza endémica sob o capitalismo.

Uma federação socialista reconheceria o direito dos judeus a manterem o seu próprio Estado, garantindo simultaneamente os direitos de quaisquer minorias dentro dele. Reconheceria também o direito histórico dos palestinianos a uma pátria. Poderia haver um certo redesenho de fronteiras. É possível que muitos palestinianos, com as suas condições de vida melhoradas nas áreas onde agora vivem — e onde, na maioria dos casos, sempre viveram — preferissem permanecer onde estão.

Num quadro capitalista, tal solução é impossível. Mas como o socialismo permite o desenvolvimento da produção, a elevação dos níveis de vida e não envolve coerção, o problema poderia ser resolvido democraticamente.

A diplomacia capitalista da OLP conduziu os palestinianos a um beco sem saída. Apesar do heroísmo dos seus combatentes, sofreram perseguições e derrotas. Do mesmo modo, os métodos de terrorismo individual praticados em diferentes momentos por todos os principais grupos da OLP revelaram-se desastrosos. Reforçaram a mentalidade de cerco dentro de Israel, empurrando os judeus para trás do Likud e provocando represálias. O mesmo aconteceu nos Estados árabes: o desvio de três aviões em 1970 forneceu a Hussein o pretexto para lançar a sua ofensiva militar contra os campos palestinianos.

Instintivamente, a juventude de Gaza e da Cisjordânia virou-se agora para outros e melhores métodos. As manifestações de massas e as greves abalaram o Estado israelita de uma forma que 25 anos de terrorismo da OLP não conseguiram. O caminho a seguir para os palestinianos passa pela elaboração de um programa e de uma perspetiva socialistas. Tal programa poderia servir de base para um apelo à classe trabalhadora judaica em Israel, tentando convencê-la de que o seu futuro reside numa luta comum com os trabalhadores árabes, e não no apoio aos seus próprios exploradores. Permitiria também aos palestinianos apelar diretamente às massas descontentes no Egito, na Jordânia e noutros Estados árabes, acelerando assim o processo revolucionário nesses países.

Liderança marxista

O que é necessário é a construção de uma liderança marxista entre os palestinianos, capaz de apresentar um programa e uma estratégia. Dessa forma, os palestinianos poderiam atuar como vanguarda da revolução socialista em toda a região.

Mas existem perigos caso tal liderança não seja construída. Há semelhanças entre o que está a acontecer agora nesta região e os acontecimentos na Irlanda do Norte em 1968–69. Na altura, existia uma enorme oportunidade para desenvolver um movimento socialista de massas e unitário. No entanto, por falta de uma liderança capaz de orientar os acontecimentos nesse sentido, a raiva da juventude católica acabou por ser desviada para os becos sem saída do terrorismo individual e do nacionalismo. Na ausência de uma liderança de classe, é possível que as ideias do fundamentalismo islâmico e o apoio a novas campanhas de terror contra Israel encontrem eco nos campos palestinianos.

Já existem sinais de que o descontentamento com a liderança moderada da OLP está a empurrar uma parte da juventude nessa direção. Caso organizações como a Jihad Islâmica ganhem uma base sólida, isso representaria um retrocesso para o movimento socialista e um fator de enorme complicação da situação.

A escolha é clara. Ou as massas palestinianas levam adiante a luta que iniciaram desenvolvendo uma liderança socialista, ou os acontecimentos acabarão por conduzir a um agravamento do conflito árabe-judeu, no qual tanto a classe trabalhadora árabe como a judaica sairão derrotadas.