– Artigo publicado originalmente em inglês pelo Projeto para uma Internacional Marxista Revolucionária a 11 de Janeiro de 2026 –
Apesar da dramática agressão dos EUA em Caracas e da propaganda imperialista, a classe trabalhadora na Venezuela e na América Latina saiu às ruas para denunciar o sequestro de Nicolás Maduro. Mas, acima de tudo, para defender as conquistas do Chavismo e da Revolução Bolivariana, e para se opor à ameaça que a intervenção representa para todos aqueles que ousam desafiar a vontade do imperialismo norte-americano.
Até a sua capital financeira, Nova Iorque, foi testemunha de mobilizações significativas contra o sequestro de Maduro.
Certamente, e apesar da cumplicidade dos meios de comunicação corporativos — que, na sua maioria, optaram por ignorar os protestos massivos em Caracas a favor da libertação de Maduro — é um facto que a queda de Maduro não significou a queda do seu regime, da burocracia chavista ou do próprio Chavismo. Como alguns analistas apontaram, isto equivale a capturar o rei sem dar o xeque-mate.
A Estratégia Arriscada e Imprudente de Trump
O próprio anúncio de Trump, permitindo que Delcy Rodríguez assumisse a presidência interina da Venezuela, mostra que, apesar da operação militar “cirúrgica”, o imperialismo não controla a situação. Pelo contrário, impor María Corina Machado ou Edmundo González só poderia piorar as coisas. O próprio porta-voz do setor financeiro dos EUA, o The New York Times, rejeitou a operação no seu editorial no dia seguinte ao sequestro de Maduro, declarando que “se há uma lição primordial das relações internacionais dos EUA no último século, é que tentar derrubar mesmo o regime mais deplorável pode piorar as coisas”.
Mas o que pode significar para um setor do imperialismo que as coisas possam piorar? A que lições do passado se referem os porta-vozes do setor financeiro dos EUA? A resposta não é difícil de encontrar, com a Venezuela e o Chavismo no centro.
A 11 de abril de 2002, o imperialismo tentou derrubar o então presidente Hugo Chávez. No entanto, as mobilizações de massas que irromperam em Caracas e noutras cidades do país caribenho não só travaram o golpe e restituíram Chávez como presidente da Venezuela, mas também catapultaram a radicalização do processo bolivariano, com a expropriação de empresas sob controlo estatal, o desenvolvimento de comunas como órgãos democráticos dos bairros da classe trabalhadora que decidiam que ações ou medidas avançar, e a própria radicalização de Chávez, que voltou a colocar o socialismo na agenda pública global.
Isto explica por que razão Trump optou por uma operação relâmpago na Venezuela, temendo uma resistência popular prolongada liderada por milícias civis que, apesar do descrédito internacional e das acusações de ilegitimidade, defendem a presidência de Maduro e o seu regresso.
Se tivesse sido escolhida uma intervenção direta, a esta altura os mortos já se contariam aos milhares entre as fileiras do exército dos EUA, e a imprensa norte-americana estaria a noticiar o transporte e a chegada dos corpos ao país, tal como fez durante a catastrófica aventura militar no Vietname e a humilhante queda de Saigão em 1975. O imperialismo aprende com as suas lições, e um cenário desse tipo poderia marcar o momento do “já chega” para os planos de Trump e de Marco Rubio na região.
Chavismo não derrotado
Daqui decorre que o chavismo não perdeu o controlo da situação na Venezuela, apesar do rapto de Maduro. Este último resulta em grande medida do crescente isolamento internacional de Maduro e do chavismo, bem como da deterioração da sua imagem em consequência do desastre económico do país caribenho, que obrigou mais de sete milhões de venezuelanos a abandonar o país em busca de melhores oportunidades, transformando muitos deles numa verdadeira força de ativistas antichavistas a nível internacional. Isto representa aproximadamente um quarto da população da Venezuela, sendo a grande maioria parte integrante da classe trabalhadora venezuelana.
Tudo isto significa que já existia uma situação crítica na Venezuela antes mesmo da agressão, o que ajuda a explicar as razões do imperialismo para a desencadear. Mas isso não significa que a classe trabalhadora tenha sido desmoralizada ou completamente dispersa — como se poderia esperar após um ataque desta natureza e o rapto do presidente — nem que se tenha recolhido às suas casas.
Pelo contrário, a mobilização das milícias civis e os protestos de rua intensificaram-se. Além disso, como nunca antes no passado (nem mesmo após o golpe de 11 de Abril de 2002 contra Chávez), a oposição ficou praticamente paralisada e humilhada, mesmo depois da recusa de Trump em apoiar a presidência de María Corina Machado numa eventual transição “democrática”. O chavismo, com todas as distorções, erros e vícios implicados pela sua direcção, mantém o controlo da situação na Venezuela apesar do rapto de Maduro.
A declaração de Marco Rubio — “test Delcy” — para além de sinalizar uma tentativa imperialista de fracturar o chavismo explorando a degeneração e o oportunismo da sua direcção e promovendo a ideia de traição, constitui na realidade um reconhecimento implícito de que o imperialismo enfrenta na Venezuela um adversário mais formidável: a classe trabalhadora organizada em torno do chavismo. Um confronto militar directo com um adversário desse tipo implicaria um custo devastador tanto para os Estados Unidos como para o próprio futuro político de Trump.
Este é, do ponto de vista político, o legado de Chávez e do movimento que engendrou em 2002 — um legado que transcende os limites da burocracia e do partido e que se manifesta na capacidade de mobilização de rua e de organização popular através das comunas e das assembleias comunais — mais de 40.000 — dispostas a defender qualquer prerrogativa contra a política imperialista dos EUA e contra tentativas de traição no seio da direcção do PSUV e do governo.
Neste contexto, é pertinente perguntar, para além das teorias estéreis sobre uma alegada traição no seio do gabinete presidencial ou uma saída negociada para Maduro, o que significa a ascensão de um poderoso movimento anti-imperialista nas ruas para a burocracia chavista, para o imperialismo norte-americano e até para o progressismo latino-americano, face às agressões recentes e às que ainda estão por vir.
É a mesma questão que foi resolvida pela irrupção popular em defesa de Chávez após o golpe de 2002 e que hoje volta a estar no centro do debate político, à luz dos limites e contradições da política de Estado e do enquadramento institucional da democracia burguesa.
Por um lado, é inegável que o aparelho chavista atravessou um profundo processo de degeneração e esgotamento, o que explica em parte a agressão de Trump — ou, como diz uma máxima da arte da guerra, a fraqueza convida à agressão.
Isto explica também o apelo feito pelo próprio Diosdado Cabello, outrora adversário de Maduro na disputa pela liderança do chavismo, nas primeiras horas do bombardeamento de Caracas e do rapto de Maduro, para que se “não facilitasse a vida aos inimigos”. Em termos simples, Diosdado apelou à paralisação do movimento de massas e a deixar nas mãos da burocracia chavista a decisão sobre que acções tomar para defender Maduro — ao custo da sua transferência para território inimigo.
O desenvolvimento do movimento de massas, tal como em 2002, não só teria travado de imediato o rapto de Maduro, como teria empurrado o processo venezuelano mais para a esquerda, colocando sob pressão não apenas o imperialismo, mas também a burocracia bolivariana responsável pela catástrofe.
A besta com pés de barro
Tanto na Venezuela como nos Estados Unidos, a burocracia bolivariana e o próprio Trump estão presos num cruzamento no avanço para uma nova fase do plano de controlo e cerco.
Por um lado, a administração Trump está condicionada pelas consequências ainda em curso da operação, num contexto de crescentes tensões internas: eleições intercalares ensombradas pelo escândalo Epstein, fracturas no movimento MAGA, aumento das denúncias e mobilizações contra as rusgas migratórias, e a vitória do socialista democrático Zohran Mamdani na capital financeira do capitalismo norte-americano — um sinal que inquieta profundamente os bilionários e os aparelhos republicano e democrata.
O ataque à Venezuela e o rapto de Maduro constituem a aposta política mais arriscada de Trump até agora, com o objectivo de recuperar uma legitimidade erodida, ainda mais degradada do que durante o seu primeiro mandato, quando perdeu a reeleição para Biden, e com um nível de desaprovação inferior ao com que o próprio Biden terminou a presidência. Segundo a revista Forbes, Trump terminou 2025 com uma taxa de aprovação de 39%.
A isto soma-se o facto de, desde o início do seu segundo mandato, o Partido Republicano ter perdido todas as eleições locais realizadas até agora, incluindo em Miami, enquanto a sua base social — o movimento MAGA — se enfraqueceu e a ruptura com um sector crescente de congressistas republicanos se aprofundou.
A aventura imperialista na Venezuela, bem como as ameaças dirigidas a Cuba, ao México e à Colômbia, podem representar um breve alívio para Trump e Rubio antes das próximas eleições intercalares de Novembro, enquanto tentam sepultar em silêncio as suas ligações a Epstein e recompor as dissensões no seio do próprio gabinete.
Se este objectivo não for alcançado — e todos os sinais indicam que o desfecho caminha nesse sentido — a sua administração poderá mergulhar numa desordem irreversível, cercada tanto pelos seus próprios aliados parlamentares como pela pressão interna e internacional contra o comportamento errático de um imperialismo em declínio. Apenas alguns dias após o ataque em Caracas, o Senado dos EUA já votou contra Trump, com o apoio de cinco senadores republicanos, bloqueando novas acções militares contra a Venezuela sem autorização do Congresso.
Ao mesmo tempo, é evidente que a imagem de Maduro sairá reforçada — não só na Venezuela, mas em toda a esquerda latino-americana e mundial — como refém do imperialismo. E, com ela, o regime dos irmãos Delcy e Jorge Rodríguez. Tanto mais que este último anunciou a libertação de pelo menos várias centenas de presos políticos, incluindo Enrique Márquez, antigo candidato do Partido Comunista da Venezuela.
Simultaneamente, isto colocará em causa tanto as acções unilaterais da burocracia bolivariana como aqueles que, sob a suposta defesa da Revolução Bolivariana, silenciaram as críticas às medidas burocráticas.
A resposta do progressismo latino-americano
As reacções de Petro, Boric, Sheinbaum e Lula foram rápidas, denunciando a agressão injustificada e condenando os ataques dos EUA como violações flagrantes de acordos e do direito internacional — hoje praticamente esvaziado de conteúdo.
No entanto, é evidente que as capacidades — e até a vontade política — para responder eficazmente a este desafio são escassas. As condenações verbais foram rapidamente relegadas perante a resposta de Trump, materializada em novas ameaças de incursões militares e sanções comerciais. O progressismo latino-americano tem de reconhecer que já não enfrenta o “imperialismo clássico” do período neoliberal, mas antes a expressão mais crua de um poder em declínio que proclama abertamente a América Latina como “o seu hemisfério” e “o seu quintal”.
Neste cenário, o futuro da democracia e a sobrevivência dos projectos progressistas dependem da capacidade real de construir uma integração regional sólida nos planos comercial, político e militar, contra um gigante com pés de barro — uma hegemonia que, na sua agonia, recorre à violência como último sustentáculo da sua dominação.
Aos olhos de milhões de latino-americanos, torna-se evidente a necessidade de formar um bloco regional de defesa contra as agressões imperialistas e como contrapeso às tentativas de subordinação económica e comercial ao mercado norte-americano — um bloco que permita à região romper finalmente a sua dependência, no caminho para uma federação socialista da América Latina.