– Artigo publicado originalmente em inglês na página do Projeto para uma Internacional Marxista Revolucionária (PIMR), a 13 de Junho de 2025 –
A caravana Soumoud, ou “Caravana da Perseverança”, do Norte de África dirige-se atualmente para Rafah com o objetivo de quebrar o cerco a Gaza. Surge num contexto extremamente complexo, no meio do sofrimento contínuo do povo de Gaza.
Representa um acontecimento único — não apenas um gesto humanitário, mas uma resposta desafiante ao silêncio ensurdecedor e à cumplicidade constante dos governantes árabes perante o massacre implacável dos palestinianos. É uma mensagem de pressão, enviada pelas massas tunisinas e pela opinião pública mais ampla do Norte de África, dirigida aos decisores políticos dos governos árabes.
Desde o início, esta iniciativa assentou na continuação de uma série de mobilizações que eclodiram na região após o 7 de Outubro de 2023. Apesar de transportar apenas ajuda simbólica, como medicamentos, alimentos e vestuário, o seu principal objetivo é político: confrontar a colaboração dos Estados com o cerco a Gaza e contribuir para o fim da catástrofe em curso.
No momento em que este texto é redigido, a caravana encontra-se perto da fronteira ocidental do Egito, no lado líbio, a caminho da passagem de Rafah, para ajudar a romper o cerco liderado por Israel — mas também imposto pelo Egito —, especialmente perante a obstinação do governo sionista e o genocídio e limpeza étnica em curso.
Como começou a coordenação e preparação desta caravana? Quais são os seus objetivos?
Esta caravana integra o esforço internacional mais amplo conhecido como Marcha Global para Gaza, um apelo de solidariedade com o povo palestiniano — que é diariamente assassinado, faminto, cercado e brutalizado. Ainda mais grave é o silêncio, traição e permissividade das potências globais, que continuam a fornecer armas utilizadas para assassinar crianças e civis inocentes — cujo único “crime” é manterem-se fiéis à sua terra e ao direito de viver.
Poderíamos chamar-lhe a Caravana do Magrebe, dado que inclui um número significativo de participantes que partiram de Argel a 8 de junho. Foram recebidos com orgulho e entusiasmo na fronteira entre a Argélia e a Tunísia, e juntaram-se à caravana tunisina no centro da capital antes de avançarem, nas primeiras horas de 9 de junho, em direção à fronteira entre a Tunísia e a Líbia.
Os preparativos começaram cerca de três semanas antes do seu lançamento — um período relativamente curto, mas suficiente para organizar toda a logística necessária, evitando atrasos. Para clarificar, e face à confusão atual sobre se a caravana poderá ou não entrar em território egípcio, o Comité Coordenador para a Ação Conjunta pela Libertação da Palestina apresentou oficialmente um pedido à embaixada egípcia na Tunísia para facilitar a passagem da caravana em direção a Rafah.
A ideia era simples: pessoas de diferentes origens decidiram participar nesta ação de solidariedade simbólica, atravessando a Líbia e o Egito para chegarem a Rafah até 15 de junho, juntando-se a outras caravanas e delegações solidárias vindas por terra, mar e ar.
Graças às redes sociais e à rápida disseminação da iniciativa, foi possível coordenar com ativistas e voluntários interessados. Como referido, ficou acordado esperar pela caravana argelina para se unirem à tunisina antes de seguir para a Líbia e, posteriormente, para o Egito — com a esperança de chegar à Gaza sitiada, quebrar o bloqueio e entregar ajuda humanitária: alimentos, água e medicamentos que estão há muito tempo retidos perto da fronteira.
Desde o início da manhã de 9 de junho, a caravana tem recebido um apoio público massivo em vários pontos de encontro na Tunísia. De acordo com estatísticas do Comité de Coordenação para a Defesa da Palestina, mais de 1.500 pessoas participam — muitos deles destacados ativistas de sindicatos e organizações de direitos humanos, como a União Geral dos Trabalhadores Tunisinos (UGTT), a União Geral dos Estudantes Tunisinos (UGET), a Ordem dos Advogados e outros.
A caravana inclui também médicos e pessoal de saúde, caso seja necessário prestar cuidados de emergência durante a longa viagem.
Esta não é apenas uma caravana tunisina — integra pessoas de todo o Norte de África. Caso consigam prosseguir, é provável que recebam um apoio significativo no Egito, onde se espera que centenas mais se juntem em solidariedade.
Todos os que participam ou apoiam esta caravana fazem-no de forma voluntária, movidos por uma profunda crença na causa palestiniana. Carregam diariamente a dor e a tragédia dos seus irmãos e irmãs que têm enfrentado fome, bombardeamentos e genocídio ao longo de dois anos.
A sua decisão foi a de defender a justiça e juntar-se ao movimento global em direção à passagem de Rafah, dizendo “Basta!” ao genocídio e respondendo a este apelo internacional à ação.
Os participantes e apoiantes acreditam firmemente no potencial da caravana para provocar mudança. Vêem-na como um passo para despertar consciências adormecidas na região, reacender a determinação e fortalecer a luta quotidiana contra a opressão sionista — com vista a levantar o cerco de forma definitiva.
O que alcançou a caravana até agora, mesmo antes de chegar à fronteira egípcia?
Nos últimos dois dias, a caravana percorreu mais de 1.500 quilómetros. Muitos perguntam pelas condições no terreno. Pode-se responder apontando para a longa história de solidariedade entre os povos. Muitas lições têm sido aprendidas sobre apoio mútuo e cooperação.
Desde que entrou em território líbio, a caravana não teve de pagar combustível para os veículos nem custos de carregamento dos telemóveis (para acesso à internet e comunicação). A solidariedade tem sido avassaladora — tanto em termos materiais como morais — incluindo facilitação da deslocação.
Estes gestos mostram o quão artificiais são as fronteiras, e como os governos capitalistas falharam — submissos às potências coloniais e determinados a reprimir os seus próprios povos, chegando ao ponto de lhes negar o direito à livre circulação.
Agora, tendo chegado às imediações de Benghazi, perto da fronteira com o Egito — e após a declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros egípcio há dois dias —, a caravana abrandou o ritmo.
Relatórios indicam que as autoridades egípcias mobilizaram reforços na fronteira com a Líbia para bloquear a caravana, exigindo que os participantes apresentem pedidos de visto antes de poderem avançar. Até ao momento, o regime de Abdel Fattah el-Sisi ainda não concedeu autorização à Caravana da Perseverança para atravessar a fronteira.
Entretanto, o Estado egípcio deteve, interrogou e deportou vários ativistas estrangeiros que chegaram como parte da Marcha Global para Gaza. Isto não é mera má gestão administrativa — é uma estratégia de obstrução deliberada.
No entanto, apesar do curto espaço de tempo, esta caravana já ajudou a expor aquilo que os regimes árabes falharam em fazer ao longo de um ano e meio de assassinatos, fome e deslocamento em Gaza — pelo impacto e dinâmica que ajudou a gerar. Trata-se de um ato global de resistência, baseado em:
- Expor a cumplicidade e traição dos regimes árabes;
- Afirmar a necessidade de estimular a vontade revolucionária dos povos oprimidos;
- Ultrapassar fronteiras como forma de resistência;
- Apelar à mobilização das massas em todo o mundo para levantar o cerco e travar o genocídio;
- Abrir novos horizontes para a luta e solidariedade internacionais.
Esta caravana é um ato importante — uma prova de que os povos do Norte de África recusam manter-se em silêncio perante o genocídio. Pode ajudar a galvanizar o tipo de ação de massas, popular e transfronteiriça necessária para quebrar o cerco a Gaza.
Na Tunísia, na Argélia e em todo o Magrebe, os sindicatos de trabalhadores e estudantes e os movimentos sociais devem aproveitar este momento para coordenar e intensificar ações nos seus próprios países.
Em toda a região, é urgente transformar esta caravana num ponto de partida para um movimento mais amplo, organizado e enraizado de solidariedade da classe trabalhadora e da juventude com a Palestina — um movimento que desafie o sionismo, o imperialismo e todos os regimes capitalistas árabes que os sustentam.