Como a Quarta Internacional enfrentou a Segunda Guerra Mundial

Por Paul Moorhouse, Projeto para uma Internacional Marxista Revolucionária na Escócia

– Artigo publicado originalmente pelo Projeto para uma Internacional Marxista Revolucionária a 6 de Maio de 2025. Atualização do artigo “A Quarta Internacional e a Guerra”, traduzido a 30 de Julho de 2024. –

À medida que se assinala o aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, os líderes mundiais voltam a recrutar soldados e a armá-los com novas e horríveis armas, preparando-se para novos conflitos — e, possivelmente, para mais uma guerra mundial, ainda mais brutal.

Este artigo analisa como os trotskistas, em várias partes do mundo, responderam a essas pressões durante a Segunda Guerra Mundial. Lutaram, “apesar de todos os perigos”, para construir as frágeis forças da Quarta Internacional (QI). O objetivo era ajudar a classe trabalhadora a derrubar o capitalismo e a elite burocrática estalinista na URSS, substituindo-os por um socialismo internacional genuinamente democrático — capaz de pôr fim, de forma definitiva, à pobreza e à guerra.

Oposição à guerra imperialista

A 31 de dezembro de 1943, 18 dirigentes do Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP), trotskista, dos EUA entregaram-se às autoridades para cumprir pena de prisão em Minneapolis, acusados de “atividades subversivas” com o objetivo de “minar ou derrubar” o Estado norte-americano.

Despedindo-se dos membros do SWP antes de cumprir 14 meses de prisão, o Secretário Nacional do partido, James Cannon, explicou que, tal como o insurrecionista abolicionista John Brown (“a figura mais grandiosa de toda a história da América”), eles:

“viram a abominação da guerra imperialista e sentiram-se compelidos a dizer a verdade ao povo sobre ela. Viram a visão de uma sociedade socialista e sentiram-se compelidos a lutar por ela a todo o custo e apesar de todos os perigos.”

Enquanto os ‘18 de Minneapolis’ estavam presos, dirigentes do Partido Comunista Revolucionário (RCP) da Grã-Bretanha foram também encarcerados — e a sua libertação foi conquistada através de uma campanha de massas. A Gestapo de Paris assassinou o trotskista alemão Martin Monath, e o belga Abraham Leon, com apenas 23 anos, pereceu nas câmaras de gás de Auschwitz.

No Vietname, Tạ Thu Thâu, dirigente da maior secção da Quarta Internacional, foi preso em 1939 pelas autoridades coloniais a mando da ‘democrática’ Terceira República Francesa. Foi libertado cinco anos depois… pelas mesmas autoridades — agora a operar em nome do regime de Vichy, colaborador dos nazis (já deposto na altura!).

Sujeito a uma ordem de dez anos de interdição de direitos civis, Tạ juntou-se à resistência clandestina, mas foi executado menos de um ano depois pelo novo governo dirigido pelos ‘comunistas’ do Viet Minh. O Presidente Ho Chi Minh justificou: “Tạ era um grande patriota e lamentamos a sua morte… mas aqueles que não seguirem a linha que traçámos serão esmagados.”

Que ideias inspiraram tamanhos sacrifícios? Que ameaça representava a Quarta Internacional — tão perigosa que levou o nazismo alemão, os seus aliados, os seus oponentes ‘democráticos’ e até os estalinistas como Ho Chi Minh a concluírem que tinha de ser “esmagada”?

A Agonia Mortal do Capitalismo

A resposta reside na análise da Quarta Internacional sobre o carácter imperialista da guerra mundial. Em 1938, no seu Congresso Fundador, a Quarta Internacional aprovou um programa intitulado “A Agonia Mortal do Capitalismo e as Tarefas da Quarta Internacional”, conhecido como o “Programa de Transição”. Aí explicava-se:

“A guerra imperialista [dá continuidade] à política predadora da burguesia. A luta do proletariado contra a guerra é a continuação e intensificação da sua luta de classes… a guerra altera a forma da luta entre as classes, mas não o seu objectivo nem o seu rumo fundamental. A burguesia imperialista domina o mundo… a guerra que se aproxima será, por isso, uma guerra imperialista. O conteúdo fundamental da política do proletariado internacional será, consequentemente… o combate ao imperialismo e à sua guerra. Neste combate, o princípio básico é: ‘o principal inimigo está no nosso próprio país’ ou ‘a derrota do nosso próprio governo (imperialista) é o mal menor’.”

“Mas nem todos os países do mundo são países imperialistas… os países coloniais ou semi-coloniais tentarão, sem dúvida, aproveitar a guerra para se libertarem do jugo da escravidão. A sua guerra não será imperialista, mas libertadora. Será dever do proletariado internacional apoiar os países oprimidos na sua guerra contra os opressores. O mesmo dever aplica-se ao apoio à URSS… A derrota de qualquer governo imperialista em confronto com o Estado operário ou com um país colonial é o mal menor.”

O Programa aplicava o internacionalismo revolucionário de Lenine e dos bolcheviques durante a Primeira Guerra Mundial ao novo conflito. Ao redigi-lo — na sequência das Teses de 1934 sobre a Guerra e a Quarta Internacional, e depois do Manifesto de 1940 da Quarta Internacional sobre a Guerra Imperialista e a Revolução Proletária Mundial — Leon Trotsky, fundador e (até ao seu assassinato em 1940) dirigente da Quarta Internacional, recusou-se sistematicamente a ceder ao ‘defensismo nacional’ colaboracionista de classes: “a derrota do nosso próprio governo é o mal menor” (em comparação com abandonar a luta de classes).

Atualizar o Derrotismo Revolucionário de Lenine

Contudo, a Quarta Internacional não podia simplesmente repetir o slogan que Lenine avançara contra as traições dos dirigentes da Segunda Internacional em 1914: “Derrotismo Revolucionário”. Os seus próprios slogans tinham de ter conteúdo concreto e atual.

Como explicava o último artigo de Trotsky (incompleto sobre a sua secretária quando o assassino de Estaline lhe esmagou o crânio com um piolet), Lenine dirigia-se a “uma pequena minoria revolucionária… esta resposta puramente negativa serviu de base… para a formação dos quadros… mas não podia ganhar as massas, que não queriam ser conquistadas por um exército estrangeiro”.

Em 1917, “os bolcheviques conquistaram, em apenas oito meses, a esmagadora maioria dos trabalhadores… o factor decisivo… não foi a recusa de defender a pátria burguesa, mas sim o slogan: ‘Todo o Poder aos Sovietes!’”. A Quarta Internacional precisava de slogans que falassem à consciência de massas 25 anos depois. Alguns trotskistas, evitando essa tarefa exigente, agarraram-se ao slogan de Lenine, reduzindo-o a uma caricatura.

No Reino Unido, a Revolutionary Socialist League (RSL), secção oficial da Quarta Internacional no início da guerra, chegou ao ponto de atacar a Workers International League (WIL) — predecessora do RCP — por exigirem abrigos antiaéreos dignos para os trabalhadores (por exemplo, ocupando as estações subterrâneas de Londres), acusando-os de “colaboração de classe defensista”. A WIL respondeu:

“Se tudo o que se exigisse dos revolucionários fosse repetir ad nauseam frases e slogans retirados dos grandes mestres do marxismo… a revolução seria simples, de facto… e todo o sectário seria um mestre estratega.”

Ao intervir audaciosamente na campanha pelos abrigos antiaéreos e noutras lutas operárias, a WIL cresceu de nove activistas em West London em 1937 para se tornar uma organização nacional com centenas de militantes, formando o núcleo da nova secção britânica da Quarta Internacional, o RCP, em 1944.

Defesa da União Soviética

À medida que a guerra avançava, os trotskistas de todo o mundo debatiam duas dimensões do conflito que os bolcheviques não tinham enfrentado 25 anos antes: a defesa da União Soviética e aquilo que viria a ser conhecido como a “Política Militar Proletária”.

A guerra era um conflito predatório por colónias e mercados mundiais entre potências imperialistas (essencialmente uma “segunda ronda da Primeira Guerra Mundial”), mas era também vista — tanto pelas potências fascistas do Eixo como pelos imperialismos britânico e norte-americano — como uma oportunidade para resolver o outro “negócio inacabado” de 1918: derrubar o Estado operário na URSS e reverter as conquistas da Revolução de Outubro.

A ditadura burocrática em Moscovo, que temia a classe trabalhadora internacional, não podia defender eficazmente, muito menos espalhar, a revolução. Os revolucionários genuínos precisavam de defender a URSS, apesar do seu regime político opressor feito de processos-espectáculo e campos de trabalhos forçados, mesmo quando Estaline oscilava entre alianças com blocos imperialistas rivais — iniciando a guerra, inclusive, com um pacto com Hitler para conquistar e dividir a Polónia.

Trotsky dedicou grande parte do seu último ano de vida a combater uma minoria dentro do SWP (EUA), liderada por Max Shachtman, que, com base nas traições do estalinismo e na invasão soviética da Finlândia, concluiu que a União Soviética já não era um Estado operário. As intervenções de Trotsky nesse debate, publicadas sob o título “Em Defesa do Marxismo”, permanecem um clássico da teoria marxista.

É particularmente útil comparar estas intervenções com o volume complementar de Jim Cannon, A Luta por um Partido Proletário. Grande organizador e agitador revolucionário, Cannon priorizava sempre o plano organizativo e a intervenção prática em detrimento dos fundamentos teóricos — o que dá à sua obra um valor complementar, mas distinto.

Política Militar Proletária

Durante a cisão de 1940, foi Trotsky quem preencheu esta lacuna, fortalecendo o partido a longo prazo. Sem o seu equilíbrio e intervenção, Cannon teve menos sucesso. A sua ansiedade, já em 1938, para forçar uma ‘unidade’ organizacional entre os diversos grupos trotskistas britânicos levou a que, durante grande parte da guerra, a propaganda da RSL (a secção oficial da Quarta Internacional) fosse uma mistura eclética entre um derrotismo ultra-esquerdista (como no caso dos abrigos antiaéreos) e um pacifismo “anti-militarista”, completamente alheios à estratégia que estava no centro do segundo grande debate dentro da Internacional: a chamada Política Militar Proletária (PMP).

Coube à WIL — não reconhecida nem apoiada pela Internacional — aplicar esta política, construindo uma base sólida para o trotskismo nos locais de trabalho e nas forças armadas, enquanto as fações em luta da “unificada” RSL se desintegravam. Embora este erro não tenha sido fatal, a recusa de Cannon em reavaliar as perspectivas para o pós-guerra, preferindo repetir abstratamente fórmulas tiradas do Programa de Transição fora do seu contexto, foi o que destruiu a FI enquanto veículo para a luta revolucionária.

Mas o que era, afinal, a Política Militar Proletária? Como surgiu? Em maio de 1940, a Alemanha invadiu a França. Em poucas semanas, os políticos capitalistas da Terceira República processaram a paz com Hitler — muitos aderindo ao regime colaboracionista de Vichy que policiava o sul da França ao serviço do nazismo.

Em julho, o Youth for Socialism da WIL explicava como a burguesia francesa, temendo uma nova Comuna de Paris, se recusou a armar os trabalhadores:

“A França foi traída. A verdadeira Quinta Coluna foi o governo da capitulação — de banqueiros, industriais, milionários e generais… Antes perder todos os lucros com uma vitória das massas francesas, estes ‘patriotas’ preferiram garantir-se com migalhas… tiradas das mesas dos nazis.”

Isto revelou a incapacidade dos Estados-nação capitalistas de garantir o que os trabalhadores necessitavam: proteção contra invasões, ocupações e repressão fascista. Os capitalistas temem armas nas mãos da classe trabalhadora — mesmo nas ‘democracias’ restantes como o Reino Unido e os EUA (já a preparar a entrada na guerra). Os revolucionários deveriam denunciar esta realidade e exigir o armamento da classe trabalhadora enquanto classe.

No banco dos réus durante o julgamento por sedição em Minneapolis, em novembro de 1941 (antes da entrada dos EUA na guerra), Cannon explicou:

“Defendemos o treino militar universal… mas não nos termos usados pelo atual governo capitalista… os trabalhadores devem receber treino militar sob direção dos sindicatos, eliminando assim um dos maiores defeitos do aparelho militar atual… o fosso social entre o soldado-operário e o oficial… Esse é o coração da nossa política militar.

“A guerra não é entre democracia e fascismo: Hitler quer dominar o mundo, mas… os capitalistas americanos têm a mesma ambição… as Sessenta Famílias que possuem a América… são os maiores inimigos da democracia dentro de portas… usarão a guerra para eliminar liberdades civis e impor a melhor versão possível de fascismo.”

“Um Estado operário travaria uma guerra revolucionária contra o nazismo, prometendo não impor um novo Tratado de Versalhes para humilhar o povo alemão, nem tirar-lhes as vacas leiteiras e deixar os seus bebés a morrer à fome. Diríamos: ‘Vamos reorganizar o mundo com base justa e socialista.’ Também lhes diríamos: ‘Vamos construir o maior exército do mundo para vos ajudar a esmagar Hitler militarmente numa das frentes, enquanto se revoltam contra ele na outra.’”

Opondo-se tanto à guerra imperialista como ao pacifismo, a Quarta Internacional resistiu às pressões para declarar uma ‘trégua de classe’ durante a guerra. No Reino Unido, os trotskistas apoiaram greves nas minas e noutros sectores, fundando a Federação de Trabalhadores Militantes para ligar as resistências de base. Quando os aprendizes de engenharia em Tyneside entraram em greve contra a conscrição forçada para as minas de carvão, foi ao recém-formado RCP e à Federação que recorreram — e venceram. Líderes mineiros da direita queixaram-se ao governo:

“Se os aprendizes são autorizados a abandonar o trabalho… não se pode culpar os nossos camaradas por fazerem o mesmo. Está na hora de lidar com isto de forma firme.”

O Labour fez o trabalho sujo dos Tories

Dois membros trabalhistas do gabinete de coligação — o Ministro do Interior Herbert Morrison e o Ministro do Trabalho Ernest Bevin — lideraram a prisão de quatro militantes do RCP, utilizando leis anti-sindicais aprovadas pelo governo conservador na sequência da derrota da Greve Geral de 1926. O Secretário-Geral do RCP, Jock Haston, e o secretário da Federação de Trabalhadores Militantes, Roy Tearse, foram condenados a 12 meses de prisão. Uma ampla campanha garantiu a anulação das sentenças em recurso.

Para além de locais de trabalho por todo o país, o apoio veio também de soldados estacionados no Norte de África. Uma petição publicada no Eighth Army News afirmava:

“O direito à greve é parte da liberdade pela qual estamos a lutar… o verdadeiro culpado… é o governo… por deixar a indústria nas mãos dos exploradores… e intensificar a exploração ao enviar aprendizes contra a sua vontade para as minas.”

As detenções foram igualmente debatidas no Parlamento das Forças Armadas no Cairo, refletindo o crescente êxito da aplicação da Política Militar Proletária pelo WIL/RCP. Em fevereiro de 1944, 600 soldados participaram numa sessão, que aprovou uma moção apresentada por membros do RCP exigindo a nacionalização dos bancos, da terra, das minas e dos transportes, com o objetivo de construir quatro milhões de casas camarárias.

O apoio entusiástico à repressão veio do Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB). Na verdade, os estalinistas do CPGB queriam ainda mais repressão! O deputado comunista DN Pritt exigiu que Morrison encerrasse o jornal do RCP, Socialist Appeal. Quando, em janeiro de 1941, a coligação tinha proibido o Daily Worker do próprio Partido Comunista, o WIL opôs-se — por entender que se tratava de um ataque à democracia e ao movimento operário.

Comunistas de cabeça para baixo

Em 1941, o Partido Comunista (CP) atacava a guerra como “imperialista”, defendendo o pacto de Stalin com Hitler.

A 22 de Junho de 1941, Hitler invadiu a URSS e Stalin fez uma viragem de 180 graus, entrando numa aliança com a Grã-Bretanha e, após o ataque a Pearl Harbour, com o imperialismo dos EUA. Em Agosto, o Socialist Appeal escreveu:

“Porque Hitler… não lhes deixa alternativa… A burocracia é forçada a defender a União Soviética. [Mas] de uma forma distorcida e burocrática…, consumindo quatro quintos dos bens produzidos para consumo…, é isto pelo que estão a lutar. Stalin deseja a derrota de Hitler [mas] não deseja uma revolução proletária na Alemanha… a tomada do poder pelo proletariado alemão afastaria o estalinismo!”

O CPGB alinhou-se de forma rígida com os seus mestres de Moscovo, e o Socialist Appeal explicou:

“A prostituída Internacional Comunista, que foi vendida… para apaziguar Hitler, agora é trocada por… ferramentas de máquinas e Spitfires.”

Em Maio de 1943, Stalin capitulou ainda mais ao imperialismo, dissolvendo a Internacional de Lenin.

Na conferência de Yalta, em Fevereiro de 1945, ele cedeu ainda mais: dividindo a Europa em “esferas de influência”. Os estados do Leste Europeu ocupados pelo Exército Vermelho deveriam ser domínio da Rússia.

Por sua vez, o imperialismo reinava supremo na França, Itália e Grécia, onde Stalin consentiu no desarmamento, prisão e tortura dos partisans comunistas por colaboradores fascistas sob a supervisão da Grã-Bretanha. A 3 de Dezembro de 1944, soldados britânicos mataram 28 manifestantes desarmados em Atenas, que portavam bandeiras gregas, americanas, britânicas e soviéticas, e gritavam: “Viva Churchill, Viva Roosevelt, Viva Stalin.”

O imperialismo ressentiu-se da dominação da burocracia soviética a leste do que viria a ser a “Cortina de Ferro”, e a frustração capitalista por perder o poder de saquear e explorar grande parte da Europa alimentou a Guerra Fria. Contudo, o WIL explicou, no início de 1944:

“A força da União Soviética [obriga] os imperialistas a chegarem a um acordo… o cansaço da guerra e o amargor das massas em todo o mundo trazem consigo uma explosão revolucionária… a Europa ocupada olha para a União Soviética em busca de uma saída. E na Grã-Bretanha e na América também, a classe trabalhadora olha para a União Soviética com simpatia… Os imperialistas são forçados a… comprometer-se com a burocracia do Kremlin. Eles podem fazer isso porque Stalin teme a Revolução Socialista na Europa tanto quanto eles… A burocracia estalinista é a única força… que pode ajudá-los a esmagar as… massas na Europa.”

A vitória em Stalingrado levou, eventualmente, a que um em cada três dos habitantes do mundo vivesse sob economias planificadas durante o próximo meio século. Esta não foi a vitória de Stalin, mas sim a vitória póstuma de Lenin, Trotsky e dos inúmeros outros bolcheviques que foram aprisionados, torturados e assassinados por ele, alcançada apesar da gestão repressiva e desastrosa da burocracia.

Os trabalhadores russos suportaram os cercos de Leningrado e Stalingrado e uma geração de jovens morreu a lutar para defender o seu estado. Estes sacrifícios para defender a economia planificada responderam ao cinismo derrotista de Shachtman e à oposição do SWP de 1940 com argumentos escritos em sangue.

Além disso, isto ocorreu apesar da insistência da burocracia de que se tratava de uma guerra patriótica, e não revolucionária, da classe trabalhadora, uma “Grande Guerra Patriótica”, substituindo o internacionalismo revolucionário de Lenin e Trotsky por chauvinismo e racismo anti-alemão.

A mesma abordagem prevaleceu na Europa ocupada: militantes comunistas formaram a espinha dorsal dos movimentos de resistência, mas não levantaram críticas aos líderes capitalistas. Oportunidades foram desperdiçadas para fazer um apelo à base de classe dos soldados alemães, como o Exército Vermelho fez entre 1918 e 1921: o único “bom alemão” era um “alemão morto”, diziam os estalinistas. Em contraste, Martin Monath foi alvo da Gestapo pelo seu papel na produção da Arbeiter und Soldat (Trabalhador e Soldado), distribuída entre os soldados e trabalhadores alemães pelos trotskistas franceses.

O apoio à repressão dos governos imperialistas levou, igualmente, os estalinistas a abandonar o anti-imperialismo no mundo colonial, precisamente quando essas lutas se intensificavam (como o Programa Transicional antecipava).

Na Índia, o Partido Comunista congelou a luta pela independência, entregando a liderança da luta de libertação nacional aos nacionalistas da classe média do Congresso. Em França, os trotskistas conseguiram recrutar entre os trabalhadores indochineses internados porque, ao contrário dos estalinistas, apoiavam a sua libertação.

O fim da guerra abriu um novo período

As “vitórias socialistas” no Leste, no entanto, e a assistência estalinista para desviar as lutas no Oeste, juntamente com o relativo isolamento dos genuínos revolucionários, permitiram que o capitalismo consolidasse sua posição na Europa Ocidental, utilizando o crescente domínio econômico do imperialismo dos EUA para financiar a reconstrução das economias devastadas pela guerra, concedendo reformas para evitar uma revolução.

Os líderes do RCP, que caracterizaram este processo como “contrarrevolução em forma democrática”, e uma minoria no SWP (liderada por Felix Morrow e Albert Goldman, um dos 18 de Minneapolis e chefe da sua equipe jurídica), argumentaram que, para construir nesta nova situação, a FI precisava reavaliar as perspectivas delineadas no Programa Transicional.

Em vez de debater essas questões politicamente, como Trotsky fez com Shachtman, e como o WIL fez quando houve questionamentos iniciais sobre o PMP dentro de suas fileiras, Cannon e a maioria da liderança da FI usaram métodos organizacionais para isolar essa oposição. No processo, destruíram o RCP e causaram danos fatais a toda a FI.

Posicionamo-nos nas tradições do RCP e, neste novo período de conflito e crise global, precisamos mais uma vez de usar os seus métodos de debate político democrático, juntamente com uma firme organização da luta militante, para reconstruir o movimento dos trabalhadores.