– Artigo publicado no jornal número 7 (Janeiro/Fevereiro 2025) do coletivo Luta pelo Socialismo, anterior ao acordo de cessar-fogo, e baseado numa versão mais longa publicada online em Novembro de 2024 –
Horrores sem fim
Mais de um ano após o início do genocídio, a carnificina está a alastrar-se por toda a região, colocando o Médio Oriente à beira do que poderá ser o maior conflito regional das últimas décadas. Os números oficiais de mais de 45 mil mortes pelo genocídio de Israel em Gaza desde 7 de outubro de 2023 estão provavelmente muito subestimados, não levando em conta o grande e crescente número de vítimas que resulta de causas indiretas, como a doença, a subnutrição e a fome. Vários estudos estimam que o número real de mortos esteja bem acima de 100 mil, representando entre 5% e 10% da população de Gaza. Como se não bastasse, todas as infra-estruturas necessárias para satisfazer as necessidades básicas de milhões de pessoas foram totalmente destruídas. Estima-se que seriam necessários 350 anos (!) para que a economia voltasse aos níveis anteriores ao genocídio.
Entretanto, a Cisjordânia ocupada também sofreu um aumento de ataques por militares e colonos israelitas ao longo do último ano, resultando na detenção de cerca de 12 000 palestinianos e na morte de centenas, entre os quais 36 crianças mortas em ataques aéreos e 129 baleadas.
Apesar das afirmações públicas em contrário, o governo de Netanyahu não atingiu nenhum dos seus objetivos declarados em Gaza. Por exemplo, menos de 7% dos reféns israelitas libertados foram recuperados pela força militar. E, apesar das celebrações triunfalistas da classe dominante israelita sobre os assassinatos dos líderes do Hamas e as perdas militares significativas em homens e material sofridas pelo grupo, a realidade é que este está longe de ter sido “eliminado” e mantém capacidade de combater. Num contexto praticamente desprovido de forças de resistência de esquerda, as atrocidades do regime israelita ajudarão o Hamas a reconstituir as suas fileiras entre as novas gerações de palestinianos. Os resultados de uma sondagem do início de setembro mostram que o apoio ao Hamas continua a ser o mais elevado em comparação com todas as outras facções palestinianas, tanto em Gaza como na Cisjordânia ocupada.
Ofensiva israelita expande-se no Líbano
Com o impasse estratégico em Gaza e a contestação interna, quer das facções do seu próprio governo que pretendem a intensificação da guerra, quer dos protestos e greves pela exigência de um acordo para a libertação dos reféns, e sentindo uma oportunidade na benevolência dos EUA, Netanyahu optou por uma aceleração da guerra no Líbano. Os atentados terroristas do Estado de Israel em todo o Líbano com recurso a aparelhos de comunicação armadilhados, em meados de setembro, serviu apenas de prelúdio a uma ofensiva militar israelita brutal contra o país. As afirmações do regime israelita de que esta nova ofensiva tem como único alvo o Hezbollah são falsas, tendo atacado indiscriminadamente hospitais, zonas residenciais, jornalistas e até forças de “manutenção da paz” da ONU. Até agora, a ofensiva matou mais de 3700 pessoas e deslocou cerca de 1,3 milhões, obrigando mais de um em cada cinco libaneses a abandonar as suas casas.
Estas ações, juntamente com a eliminação da maior parte dos principais comandantes do Hezbollah, no final de setembro, proporcionaram uma “injeção de prestígio” a Netanyahu e ao seu partido, permitindo-lhe melhorar temporariamente a sua posição a nível interno. No entanto, já são visíveis os limites dessa tendência. Sondagens recentes mostram que a maioria da população de Israel quer uma votação antecipada e que a coligação de Netanyahu seria incapaz de formar um governo nesse cenário. A nível militar, o Hezbollah continua a possuir um arsenal de mísseis e foguetes capaz de atingir praticamente qualquer alvo em Israel. A ideia de que Israel invadiu o Líbano para garantir a segurança da sua própria população é uma ilusão criada à custa do povo libanês.
A dança da hipocrisia do imperialismo
Tudo isto está a acontecer perante os olhos do mundo inteiro. O genocídio não só é tolerado, como é facilitado pelas potências imperialistas da América do Norte e da Europa. As suas condenações hipócritas não passam de uma cortina de fumo. De facto, o imperialismo beneficia de ter um aliado na região com enorme poder bélico. O imperialismo, como continuação à escala mundial da lógica capitalista de crescente expansão e exploração de recursos, mercados e força de trabalho, é uma máquina brutal de matar e destruir.
As tímidas tentativas da Casa Branca para evitar um conflito total com o Irão escondem mal o papel instrumental que o imperialismo estadunidense desempenhou ao longo do último ano na preparação desta situação explosiva e na viabilização material, política e diplomática do genocídio em Gaza. O apoio dos EUA a Israel está profundamente enraizado em imperativos geoestratégicos que não podem ser alterados por mera retórica. Assim, apesar de ocasionalmente lamentar as vítimas civis, a administração estadunidense, como os governos europeus, continua a enviar armamento para Israel.
Esta hipocrisia descarada mostra a falência moral dos líderes capitalistas globais. A sua indignação selectiva revela que as condenações da violência não são nada mais do que instrumentos de conveniência enquanto o massacre continua. O fim deste massacre não virá dos corredores do poder, mas sim de uma resistência organizada à escala internacional, forçando uma ruptura no sistema que permite e facilita estes crimes.
Parar o genocídio – Lutar contra todo o sistema
O povo palestiniano, juntamente com todos os trabalhadores e oprimidos que vivem no Líbano, na Síria e na região, precisa da solidariedade inabalável de todos os movimentos anti-imperialistas. Exigimos a cessação imediata da violência do regime sionista de Israel contra a Palestina, o Líbano e a Síria e a retirada das suas forças dos territórios ocupados. Exigimos o fim da hipocrisia dos líderes ocidentais, que defendem um cessar-fogo centrado na libertação dos reféns israelitas, mas permanecem indiferentes ao destino dos milhares de prisioneiros palestinianos que definham nas prisões israelitas e, simultaneamente, apoiam o Estado genocida e fecham os olhos à sabotagem de todas as oportunidades para um cessar-fogo.
Nenhum cessar-fogo genuíno e duradouro pode ter lugar em condições de cerco e ocupação militar. Assim, defendemos o direito inalienável das massas na Síria, no Líbano e na Palestina de resistir à agressão militar contínua de Israel, inclusive pelas armas. Uma resistência armada enraizada e vinculada às massas e controlada democraticamente pela população, procurando unir os trabalhadores e os oprimidos através das diversas confissões e comunidades nacionais, e integrando as exigências de libertação nacional com as exigências de uma política de desenvolvimento e transformação social, seria a melhor forma de o conseguir.
A resistência contra o genocídio deve visar as suas raízes fundamentais. Isto significa travar uma luta política intransigente contra o colonialismo e o racismo do Estado israelita, bem como contra o sistema capitalista e imperialista que os sustenta. Esta luta exige a construção de organizações socialistas independentes que reúnam a classe trabalhadora e todos os oprimidos em torno deste programa. Embora os partidos pró-capitalistas corruptos como a Fatah e as forças islamistas de direita como o Hamas, o Hezbollah e o HTS tenham um apoio popular significativo, os socialistas devem abordar as causas profundas da opressão nacional sem sucumbir a métodos políticos reacionários que apenas servem para consolidar as relações de poder existentes.
Não pode haver libertação para alguns sem libertação para todos: para ser bem sucedida, a luta tem de ser anti-sectária, internacionalista, feminista, anti-imperialista, anti-capitalista e dar prioridade à participação democrática das massas – qualidades em falta nestas organizações. Além disso, os seus ataques indiscriminados contra civis israelitas e a sua colaboração com o regime despótico iraniano ajudam a reforçar a propaganda sionista.
Pressão internacional crescente
No resto do mundo, embora de forma algo inconstante, milhões de pessoas erguem-se em desafio, manifestando-se, boicotando, fazendo greves, ocupando. Em Londres, 300 000 pessoas inundaram as ruas na sequência da invasão do Líbano. Em setembro, foi organizada no Estado espanhol uma greve geral “contra o genocídio e a ocupação da Palestina”, a pedido de mais de 200 sindicatos e ONG, acompanhada de protestos em massa em todo o país. Este é o caminho a seguir: para alcançar os resultados mais tangíveis, temos de atacar o coração dos especuladores de guerra e dos Estados imperialistas, visando a sua funcionalidade e os seus lucros, e dar nova vida ao apelo original dos sindicatos palestinianos ao movimento operário mundial.
Desde os estivadores gregos que bloquearam o envio de armas para Israel, aos trabalhadores da Google e da Microsoft que se revoltaram contra a parceria das suas empresas com Israel, aos trabalhadores dos hospitais em Paris que protestaram em solidariedade com os seus colegas sob bloqueio em Gaza, aos ativistas franceses do movimento “Stop Arming Israel” que panfletaram em várias fábricas de armas francesas para estabelecer ligações com os trabalhadores da indústria, aos apelos públicos dos sindicatos franceses CGT STMicroelectronics e CGT Thales para que as suas empresas deixem de fazer negócios com Israel… Estes inúmeros atos de solidariedade da classe trabalhadora devem ser ampliados o mais possível, especialmente em setores vitais para o funcionamento da máquina de guerra israelita.
Esta luta deve também estender-se aos trabalhadores e aos jovens dentro do Estado israelita, exortando-os a usar o seu poder para boicotar a máquina de guerra do seu governo. Porém, dada a tóxica ideologia racista do Estado sionista, muitos palestinianos estão obviamente céticos em relação à possibilidade de receber apoio da classe trabalhadora israelita. No entanto, tanto a greve geral de setembro como os protestos populares por um acordo com o Hamas revelaram um vislumbre do papel que a classe trabalhadora israelita poderia desempenhar na luta contra a política sionista.
É necessário um movimento revolucionário
A atual construção do Estado israelita só pode conduzir à destruição e à violência. A história das massas palestinas contém tradições que podem servir de fonte de inspiração à luta contra ele. Desde a primeira Intifada – uma revolta em massa de trabalhadores, mulheres e jovens – até à heróica Marcha do Regresso de 2018 ou à Greve pela Dignidade de 2021.
Os aliados naturais nesta luta são a classe trabalhadora, os pobres e os oprimidos da região e de todo o mundo. Este facto foi amplamente demonstrado nos últimos meses. É essencial estabelecer ligações com as massas trabalhadoras do Norte de África e do Médio Oriente.
A luta pela libertação da Palestina é inseparável da luta global mais ampla contra o capitalismo – um sistema movido pelo lucro privado que gera guerras, devastação ecológica e desigualdade obscena. Neste sistema, as tecnologias mais avançadas da humanidade não são utilizadas para elevar o nível de vida, mas para a aniquilar a uma escala genocida. A urgência de uma transformação revolucionária nunca foi tão clara. Derrubar este sistema destrutivo é essencial para recuperar a imensa riqueza e os recursos da sociedade, incluindo os que estão agora a ser canalizados para a destruição. Só através de um programa socialista que lute pela propriedade e controlo coletivos, e que defenda os direitos de todas as comunidades nacionais e religiosas à plena igualdade e autodeterminação, poderemos lançar as bases para um futuro em que a paz, a segurança e a prosperidade estejam garantidas para todas as pessoas.