– Artigo publicado originalmente em inglês, francês e neerlandês pelo Projeto para uma Internacional Marxista Revolucionária e pelo Parti Socialiste de Lutte / Linkse Socialistische Partij (PSL/LSP), Bélgica, a 24 de Fevereiro de 2025, e traduzido pelos camaradas no Brasil –
Os contornos políticos da “Zeitenwende” – o “ponto de viragem” -, a mudança geopolítica que está a derrubar o modelo outrora bem-sucedido do capitalismo alemão, foram aguçados com as eleições de 23 de fevereiro.
Com 16,4%, o Partido Social-Democrata da Alemanha (SDP) obteve o seu pior resultado desde 1890, quando Friedrich Engels ainda estava vivo.
A “Alternativa para a Alemanha” (AfD), de extrema-direita, mais do que duplicou os seus votos. Com um apoio de 20,8%, esse é o melhor resultado para um partido reacionário de tendência fascista na Alemanha desde 1933. Com exceção de alguns distritos eleitorais urbanos, principalmente em Berlim, a AfD domina a antiga Alemanha Oriental.
Com 28,5%, o Partido União Democrata-Cristã (CDU/CSU) obteve o seu segundo pior resultado desde 1949. O liberal Partido Democrático Livre (FDP), que foi o terceiro maior partido da Alemanha Ocidental no período pós-guerra, não atingiu o limite eleitoral para obter representação parlamentar.
A Alemanha está a ultrapassar o resto do mundo em termos de instabilidade e polarização política. Nos últimos anos, a chamada coligação “semáforo” do SPD, do partido Verde e do FDP, que entrou em colapso em novembro, já estava a seguir a tendência global em que as camadas dominantes da burguesia estão a tornar-se mais simpáticas à extrema direita.
Friedrich Merz, que provavelmente se tornará chanceler, personifica essa mudança. Ele foi membro de um sindicato estudantil ultra reacionário na sua juventude e ascendeu pelas hierarquias da filial alemã da Black Rock, a maior administradora de ativos do mundo, antes de se tornar chefe da CDU em 2018.
Apesar do seu flerte com a AfD, Merz diz que não formará uma coligação com a extrema-direita. Isso seria muito perturbador para o capital alemão. A coligação mais provável é a dos democratas-cristãos e dos social-democratas. Os Verdes não estarão envolvidos e o FDP e a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) não conseguiram atingir o limite eleitoral de 5%.
Cortes e divisões na agenda
A previsão de crescimento da economia alemã para este ano foi recentemente reduzida para 0,3%. Isso reflete a incerteza sobre o que a presidência de Trump significa para a economia alemã voltada para a exportação. Isso ocorre após dois anos consecutivos de recessão, com a economia a encolher 0,3% e 0,2%, respectivamente.
As disputas sobre o “Schuldenbremse”, que proíbe qualquer défice superior a 0,35% do PIB, causaram a queda do governo anterior. Isso vai continuar a ser muito problemático para a futura coligação de Merz.
Mesmo que a disciplina fiscal acabe por ser relaxada, o custo da crise recairá inteiramente sobre a classe trabalhadora, os setores mais oprimidos da sociedade e o meio ambiente. A burguesia fará tudo o que estiver ao seu alcance para implementar uma política de divisão a fim de levar adiante a sua agenda contra a classe trabalhadora.
O retorno do Die Linke
O Die Linke (A Esquerda) saiu-se muito bem, ganhando 8,8% em nível nacional. Tornou-se o maior partido em Berlim. Em 2021, o Die Linke ficou abaixo do limite eleitoral e, em 2023, Sarah Wagenknecht saiu para fundar um partido social-conservador – o BSW. Isso enfraqueceu o Die Linke no plano eleitoral, embora o número de membros tenha aumentado. (1)
Em setembro passado, o BSW tornou-se o terceiro partido em três eleições regionais na Alemanha Oriental, ofuscando claramente o Die Linke. No entanto, nesta eleição, o BSW não conseguiu atingir o limite eleitoral.
Esse é o resultado da participação do BSW em dois governos regionais, da falta de membros para realizar uma campanha decente a nível nacional e da eleição de Trump, que tornou sua posição sobre a Ucrânia menos relevante (2). Os eleitores potenciais podem ter preferido votar diretamente na AfD, pois há acordo entre ela e a BSW em muitos pontos do programa.
A 29 de janeiro, Merz usou os votos da AfD no Bundestag para aprovar uma moção com o objetivo de tornar mais rígida a política de imigração da Alemanha. O BSW também apoiou a moção, que foi rejeitada por pouco. Essa divisão no cordão sanitário contra a extrema direita (a ideia de que os outros partidos se recusem a trabalhar com a extrema-direita) foi um sinal de alerta e levou a várias manifestações de protesto.
Após essa votação, a parlamentar do Die Linke, Heidi Reichinnek, fez um discurso enfático. Ela tornou-se imediatamente uma estrela em ascensão nas redes sociais. Reichinnek criticou Merz por colaborar deliberadamente com a AfD, apenas dois dias após a comemoração de Auschwitz (3). Isso contribuiu para um aumento acentuado no número de membros do Die Linke. A 18 de fevereiro, o Die Linke tinha 91.000 membros, 31.000 a mais do que um mês antes. (4)
Com 11,6%, os Verdes são o partido da coligação que sofreu a menor perda. O eleitorado verde, bastante próspero, parece não se importar muito com questões como previdência social e aumento de preços. (5) O discurso do Partido Verde sobre imigração contém traços de preocupação humanitária, mas isso não é crível, dada a sua disposição de formar uma coligação com a CDU/CSU.
Jovens eleitores fortalecem a esquerda
O retorno do Die Linke foi impulsionado pelos jovens, especialmente pelas mulheres jovens. Dos eleitores entre 18 e 24 anos, 34% das mulheres votaram no Die Linke, em comparação com 15% dos homens. Entre as mulheres com menos de 25 anos, o Die Linke é o partido mais popular, enquanto entre os homens dessa faixa etária ele ocupa o terceiro lugar, depois da AfD e da CDU/CSU. Os Verdes, um partido que antes era muito popular entre as mulheres jovens, agora está apenas em terceiro lugar.
O modesto retorno do Die Linke é encorajador. O seu programa socioeconómico de esquerda é, em parte, uma ruptura com a forma como o sistema capitalista é administrado atualmente, que beneficia apenas um punhado de ultra-ricos.
O Die Linke tem boas posições na luta contra a opressão, especialmente o racismo e a LGBTQIA+fobia, que estão em ascensão na Alemanha, como noutros lugares, impulsionados pelo comportamento, palavras e ações dos grandes média e dos partidos pró-capitalistas.
Entretanto, o Die Linke também tem deficiências importantes que explicam o seu declínio anterior. Quando o Die Linke participou em governos, adaptou-se ao sistema. O Die Linke está frequentemente ausente dos movimentos de luta e é atormentado por profundas divisões internas. Como resultado, algumas de suas posições são confusas, fracas e até mesmo totalmente erradas. Esse é especialmente o caso em relação ao genocídio em curso em Gaza e à libertação da Palestina, um tema que esteve ausente durante as eleições.
Os jovens que são atraídos pelo Die Linke terão de tomar a iniciativa de se organizar e promover as lutas necessárias, sem fazer concessões à extrema-direita ou ao capitalismo em crise. Somente dessa forma eles poderão virar a maré nas frentes socioeconómicas, ecológicas e opressivas, incluindo a opressão racista e colonial da Palestina.
- Em Outubro de 2023, 13.350 pessoas juntaram-se ao partido, comparados com 7.458 que o abandonaram. https://www.zeit.de/politik/deutschland/2024-11/linke-partei-mitglieder-zuwachs-bsw-wagenknecht?fbclid=IwY2xjawIpB_tleHRuA2FlbQIxMAABHbfyTec6dYkkh1THkoM84H_LTBtL-ffPWgcFnaQkZJ1Msf97ZSGkTQREbA_aem_nHUcCN2S678uc7QetoyXQQ
- https://www.morgenpost.de/politik/article408368436/bsw-sahra-wagenknecht-bundestagswahl-2025-ergebnis-bundestag.html
- https://www.politico.eu/article/germany-left-party-die-linke-rising-young-voters-heidi-reichinnek/
- https://www.t-online.de/nachrichten/deutschland/bundestagswahl/id_100604498/linke-verzeichnet-mitgliederrekord-vor-wahl-migrationsdebatte-als-treiber.html
- https://www.tagesschau.de/wahl/archiv/2025-02-23-BT-DE/umfrage-wahlentscheidend.shtml