50 Anos do Golpe no Chile e os Limites do Reformismo

Por Maria

– Artigo publicado no jornal número 2 (Setembro/Outubro 2023) da Alternativa Socialista Internacional em Portugal –

A 11 de Setembro de 1973, a luta da classe trabalhadora chilena pelo controlo do seu futuro foi violentamente silenciada por um Golpe de Estado, planeado e financiado pela classe dominante capitalista. Nos meses que se seguiram, cerca de 3.000 pessoas foram assassinadas e muitas mais torturadas, pelo regime ditatorial instaurado.

Na década de 1960, a economia chilena era maioritariamente controlada por holdings internacionais e monopólios nacionais. A indústria do cobre, a mais importante do país, era detida maioritariamente por holdings sediadas nos EUA e os terrenos agrícolas faziam parte de enormes latifúndios. A enorme desigualdade económica resultante, a elevada inflação e desemprego tiveram como consequência o aumento da consciência política da classe trabalhadora. A atividade sindical cresceu e vários protestos e greves importantes foram organizados.

O crescimento da consciência e organização da classe trabalhadora  no Chile, ameaçador para o sistema capitalista, levou o governo dos EUA a organizar a distribuição de propaganda antissocialista e a apoiar em eleições presidenciais sucessivas o Partido Cristão Democrático, que se comprometia a implementar ligeiras reformas em favor da classe trabalhadora. O objetivo era deter a vontade revolucionária popular através da canalização de votos para um partido que, na realidade, pertencia ao sistema.

Mas a 4 de Setembro de 1970, o candidato da Unidade Popular (UP), que constituía a coligação dos partidos de esquerda, Salvador Allende, foi o mais votado nas eleições presidenciais, tendo recebido 37% dos votos. A Constituição do Chile determinava que, no caso de não haver maioria absoluta, o Congresso, maioritariamente composto por apoiantes do sistema capitalista, devia escolher entre os dois candidatos mais votados. Após forte pressão popular, o Congresso aceitou eleger Salvador Allende, com a condição de o mesmo assinar um “Pacto Constitucional”, no qual era prometida a não interferência nas instituições estatais, como as Forças Armadas. Essencialmente, este pacto significava a manutenção do estado capitalista e a determinação do governo da Unidade Popular em honrá-lo provou-se, mais tarde, fatal.

O governo da UP, pressionado pela classe trabalhadora, implementou várias medidas que levaram a um aumento do nível de vida das classes assalariadas sem precedentes. O aumento de salários, o investimento na Saúde pública, a criação de alojamento público, o fim das propinas nas universidades, antes apenas acessíveis aos ricos, a distribuição de manuais escolares gratuitos e a criação de bolsas para alunos pobres são alguns exemplos das muitas medidas aplicadas. Ao mesmo tempo, várias indústrias de exploração dos recursos naturais, como a indústria do cobre, e empresas financeiras foram nacionalizadas e iniciou-se uma reforma agrária, com a expropriação dos grandes proprietários.

Este sucesso inicial não tardou a ser boicotado pela classe dominante chilena, apoiada monetariamente pelo governo dos EUA. Com o objetivo de desmoralizar a população, foram orquestradas sabotagens nas cadeias de abastecimento do país e um bloqueio económico internacional, o que causou um aumento descontrolado da inflação. Este foi combatido pela organização por parte da população e do governo de centros de distribuição de alimentos e fixação de preços e pelo controlo operário de importantes áreas económicas, através da formação de “cordones industriales”. Contrariamente ao esperado, a vontade revolucionária da classe trabalhadora foi reforçada.

No entanto, o boicote económico era apenas uma parte dos planos para acabar com o governo da Unidade Popular. Preparativos para um Golpe de Estado, como o assassinato e o afastamento de membros das Forças Armadas que se opunham à interferência das mesmas na política, tinham sido iniciados antes mesmo da eleição de Salvador Allende como presidente do Chile. O Golpe de Estado iminente era do conhecimento geral da população e houve mesmo uma tentativa, a 29 de Junho de 1973, que fracassou. Contudo, o governo da Unidade Popular recusou-se sempre a tomar medidas efetivas para impossibilitar o golpe. A população não foi mobilizada nem armada e não se procurou obter o apoio de soldados e marinheiros. A 23 de Agosto de 1973, Augusto Pinochet, que liderou o Golpe de Estado e a ditadura que se seguiu, foi eleito Comandante das Forças Armadas por Salvador Allende.

No mês que precedeu o Golpe de Estado, Agosto de 1973, 63% do Congresso chileno votou a favor de uma declaração que acusava o governo da Unidade Popular de vários atos inconstitucionais e de abuso de poder e que pedia abertamente a intervenção das Forças Armadas. Em resposta, a classe trabalhadora organizou vários protestos e exigiu armas para defender a Revolução, tendo-se manifestado mais de um milhão de pessoas em frente ao Palácio Presidencial, dois dias antes do Golpe de Estado.

A inação e atitude conciliatória do governo da Unidade Popular que, até ao fim do seu mandato – quando o Palácio Presidencial foi atacado – procurou governar dentro do sistema capitalista vigente, resultou na derrota da Revolução e numa ditadura militar de 1973 a 1990, na qual a população chilena foi alvo de violenta repressão e usada como laboratório de nefastas medidas económicas neoliberais. Mas a ação da classe trabalhadora chilena em 1973, com a formação de órgãos alternativos de poder proletário, mostra a sua força. O golpe de Pinochet teria sido impedido se toda a força dos explorados e oprimidos tivesse sido mobilizada por uma organização política com um programa capaz de substituir o capitalismo. Essa mobilização só é possível independentemente das instituições e partidos que defendem a manutenção do sistema. Essa é uma importante lição para as lutas de hoje em todo o mundo.