– Artigo publicado originalmente em inglês pelo Projeto para uma Internacional Marxista Revolucionária a 22 de Julho de 2025 –
Esta semana assinala-se o centenário do nascimento de Frantz Fanon. Psiquiatra de profissão, Fanon explorou, enquanto escritor, as alucinações mórbidas do racismo, do império e do capitalismo em obras célebres como “Pele Negra, Máscaras Brancas” (1952) e “Os Condenados da Terra” (1961). O título deste último (“les damnés de la terre”) é retirado de um verso do hino operário A Internacional, refletindo o facto de Fanon fazer parte de uma vaga de notáveis escritores socialistas afro-caribenhos, como CLR James e Walter Rodney.
Fanon escrevia com convicção. As suas declarações eram ousadas, categóricas e desafiadoras. A sua voz continua a soar clara hoje, seja em protesto contra o racismo ou em apoio aos povos que lutam pela liberdade. “Sociologia de uma Revolução” é um retrato do povo argelino em luta. Publicado durante a guerra de libertação da Argélia contra o Império Francês (1954–1962), o foco da obra é como a experiência da luta pela libertação transformou a consciência popular. Embora oriundo da colónia francesa das Caraíbas, Martinica, Fanon escreve sobre a luta argelina na primeira pessoa do plural (“Nós…”), revelando uma visão internacionalista enraizada não só numa luta comum contra uma potência imperial, mas contra o imperialismo global.
Este conflito ficou marcado pelo uso de tortura e outras atrocidades por parte das autoridades coloniais francesas. Embora Fanon aborde este tema, o povo argelino surge, na maioria das vezes, como protagonista e não como vítima. E embora se trate de um relato de luta armada, não há menção a movimentos de tropas, armamento ou táticas. O foco está na cultura e na psicologia: vestuário, rádios, relações familiares, medicina. Estes elementos culturais aparentemente inocentes tornam-se campos de batalha simbólicos. O nosso tempo não é estranho a este tipo de fenómeno — como quando conservadores norte-americanos boicotaram a Bud Light como forma indireta de atacar pessoas trans, ou quando sionistas interpretaram um filme do Super-Homem como propaganda contra a sua causa.
‘Argélia revelada’
Outro exemplo do século XXI são os debates públicos em torno da burca, o véu facial usado por algumas mulheres muçulmanas. Esses debates poderiam ter sido mais curtos se mais pessoas tivessem lido Fanon. Ele mostra grande interesse pelo véu usado pelas mulheres argelinas e, em vez de julgamento ou escárnio, oferece um relato do seu significado no contexto da luta. O véu foi inicialmente usado como alvo pelos colonizadores que, em nome da libertação das mulheres, procuravam “desvelar a Argélia” (os Estados Unidos tentaram justificar a sua ocupação de vinte anos do Afeganistão de forma semelhante, alegando que estavam lá para proteger as mulheres — como se os Marines fossem uma espécie de coletivo feminista interseccional).
Mas os homens franceses que queriam desvelar as mulheres argelinas revelavam, nas suas observações grosseiras, que o feminismo era a última das suas intenções. Fanon retrata esse esforço francês como uma obsessão neurótica e mostra como essa campanha nada fez pela libertação das mulheres. Pelo contrário, reforçou costumes patriarcais ao associá-los à resistência anticolonial.
Ainda assim, o papel das mulheres na sociedade argelina sofreu grandes mudanças nos anos 1950. Estas mudanças não vieram de iniciativa do colonizador, mas da luta de massas. Mulheres do movimento independentista circulavam sem véu para passarem despercebidas enquanto transportavam armas ou mensagens nos bairros europeus ou europeizados das cidades. Era a primeira vez nas suas vidas que apareciam em público sem véu — uma experiência profunda, tomada por iniciativa própria. Por outro lado, havia situações em que o véu permitia passar despercebida.
Quer com véu, quer sem ele, a atividade revolucionária abalava a estrutura da família tradicional argelina, à medida que inúmeros pais se confrontavam com o facto de as suas filhas estarem ausentes durante dias, semanas ou meses, hospedadas com homens desconhecidos em casas seguras ou campos de guerrilha. Os pais das combatentes não só aceitavam isso como se orgulhavam das filhas por assumirem responsabilidades de vida ou morte.
Rádio guerrilha
O rádio foi inicialmente rejeitado pelos colonizados, que o viam como instrumento do colonizador, ligando o colono à sua pátria francesa e difundindo propaganda. Fanon descreve com total empatia como é difícil para os colonizados serem “objetivos” e “neutros” quando a sua cultura e dignidade coletiva estão sob ameaça.
Mas quando os combatentes da libertação nacional argelina criaram as suas próprias estações de rádio — e o governo colonial francês as proibiu e interferiu nas suas frequências — os argelinos tornaram-se entusiastas do rádio. Ouvir as transmissões tornava-se uma forma de luta anti-imperial em que as massas podiam participar, num jogo de gato e rato com as autoridades. Quem conseguia ouvir as notícias passava-as oralmente a muitos outros.
As formas como os movimentos de libertação se relacionaram com tecnologias como o rádio podem inspirar reflexões sobre as tecnologias atuais. Talvez connosco tenha acontecido o inverso: há 10 ou 15 anos havia um otimismo utópico sobre o potencial das redes sociais para causas progressistas, mas hoje cresce o desencanto, à medida que se torna evidente que as grandes tecnológicas envenenam mentes e destroem culturas por lucro. O ódio reacionário cego é promovido, mesmo em plataformas que não pertencem a fanáticos nazis. As atitudes mudaram radicalmente, mostrando que também hoje é difícil sermos objetivos em relação às novas tecnologias de comunicação.
Medicina
De forma semelhante, a secção sobre medicina faz pensar na consciência antivacinas e anticiência do nosso tempo. Os colonizados tendiam a rejeitar a medicina moderna, tal como rejeitavam as técnicas modernas de comunicação. Os argelinos mostravam-se desconfiados e pouco cooperantes, mesmo perante iniciativas de saúde bem-intencionadas e objetivamente benéficas. Comentadores da época atribuíam isso ao “carácter nativo” ou a uma atitude “fatalista” perante a saúde. Na realidade, estava enraizado em conflitos muito reais e imediatos. Um país que conquista outro com fogo e sangue não pode esperar ser confiável quando se trata de cuidados de saúde. Mais uma vez, vemos como coisas aparentemente inocentes se tornam campos de batalha: se o povo colonizado reconhece que a medicina moderna é boa, o colonizador interpreta isso como validação de todo o projeto colonial.
E havia ainda o papel dos médicos na tortura e repressão. Médicos ao serviço do exército francês tratavam prisioneiros torturados até ao limite da morte, sabendo que voltariam à tortura assim que estivessem minimamente recuperados. Alguns médicos usavam técnicas bárbaras, como “soros da verdade” que causavam danos cerebrais.
Tal como com o rádio, quando os franceses proibiram certos produtos médicos para impedir que chegassem aos guerrilheiros, o público começou a procurá-los com entusiasmo, surgindo redes de contrabando. Conselhos de saúde vindos da liderança do movimento de libertação, ou dos “nossos” médicos associados ao movimento, eram levados muito a sério.
A medicina moderna vinda do inimigo era rejeitada — tal como a tecnologia de comunicação e a libertação das mulheres. Mas essas mesmas coisas eram defendidas quando surgiam organicamente da iniciativa do próprio povo, em oposição ao colonizador.
Minorias
Fanon dedica um dos cinco capítulos à questão de conquistar a minoria europeia da Argélia, bem como outros grupos minoritários, como os judeus. Defende que várias centenas dos colonos mais poderosos devem ser expulsos do país e que os torturadores e assassinos profissionais do aparelho de segurança devem ser vigiados e tratados por psiquiatras. Mas quanto ao resto, defende que todos os grupos minoritários, incluindo os europeus, devem ser aceites como parte integrante de um novo Estado argelino multirreligioso e multirracial. Inclui um apêndice com o relato de um ativista de origem francesa e dedica tempo a casos em que até agricultores colonos ajudaram, armaram, alimentaram e abrigaram guerrilheiros.
Neste livro e noutros, Fanon defende que a violência pode ser justificada — mas sempre no contexto da sua visão universalista e humanista da descolonização.
Conclusão
O colonialismo continua vivo, mais visivelmente com o genocídio do Estado israelita em Gaza, a limpeza étnica na Cisjordânia e a agressão constante — tudo com apoio ilimitado e incondicional dos Estados Unidos. Fanon escrevia numa época mais otimista, quando o mundo parecia avançar na direção certa. Após as revoluções russa e chinesa, a derrota do fascismo e o colapso dos velhos impérios europeus e do Japão, uma nação após outra conquistava a independência política. Infelizmente, sem derrubar também o capitalismo, esses países continuaram a ser dominados e estrangulados economicamente pelo imperialismo — demonstrando como as lutas anticoloniais estão intrinsecamente ligadas à luta pelo socialismo revolucionário internacional.